O setor industrial brasileiro adiantou-se ao governo federal e começou a assumir metas de redução da emissão dos gases do efeito estufa.
As medidas, embora voluntárias, não estabelecem valores mínimos de corte. Ainda assim, indicam mudanças na política ambiental nacional.
A proposta partiu da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e do Centro das Indústrias de São Paulo (Ciesp).
A idéia é debatida há meses e aprovada na semana passada na 1ª Conferência da Indústria Brasileira para o Meio Ambiente. Faz parte de um documento amplo, com princípios ambientais a serem incorporados pela indústria nos próximos anos, que segue para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) referendar.
Pelo documento, o setor se compromete a adotar medidas de mitigação de emissões de CO2 e outros gases, a integrar programas de mobilização da sociedade e a investir em pesquisa e inovação tecnológica focada em campos como eficiência energética e fixação de carbono. Também faz parte a busca por incentivos econômicos dentro de mecanismos de desenvolvimento limpo e a elaboração de novos inventários nacionais de emissões - o único feito tem informações coletadas de 1990 a 1994.
Segundo o diretor do Conselho de Meio Ambiente da Fiesp, Nelson Pereira dos Reis, as medida devem ser debatidas de acordo com a área de atuação e a região, em um movimento capitaneado pela CNI.
Pelo Protocolo de Kyoto, o país deve buscar formas de reduzir as emissões dos gases do efeito estufa, que se concentram na atmosfera e provocam o aquecimento global.
Ao contrário dos países ricos, o Brasil integra o grupo que não precisa prestar contas de suas ações à comunidade internacional.
A falta de obrigações, somada à participação menor como fonte de emissão (menos de 20%) - comparada ao desmatamento e às queimadas (75%) - levou a indústria nacional a ignorar o tema por anos, apesar de o protocolo ter sido ratificado pelo Brasil em 2002.
O documento aprovado na semana passada mostra que o vento alterou seu rumo. "Dentro da questão de mudanças climáticas, o setor industrial deve ter uma participação ativa. Não cabe à indústria definir as metas, mas já demonstramos disposição de ir nessa direção", afirma Reis.
"A empresa tem CNPJ e endereço. Na hora de reduzir as emissões, é mais fácil apontar nossa parte do que trabalhar com emissões difusas, do desmatamento e das queimadas, que são realmente as grandes fontes de gases-estufa do Brasil", diz Reis.
"O caminho não pode ser só comando e controle, mas o incentivo a práticas sustentáveis e voluntárias, como ISO 14000 e busca de fornecedores que mostram boas práticas", defende o diretor de Meio Ambiente da Ciesp, Mario Hirose.
Caso o setor industrial realmente apresente uma redução voluntária consistente, ela poderia ser usada como moeda nas mesas de negociação internacional. Somado a uma matriz energética "limpa", baseada em hidrelétricas e etanol, esse seria um indicativo de que o Brasil faz, sim, sua parte - sem que cortes obrigatórios precisem ser adotados.