Rio de Janeiro, 16 de Outubro de 2026

Índios isolados da fronteira Brasil-Peru ameaçados por grupo de peruanos armados

Quarta, 17 de Agosto de 2011 às 09:04, por: CdB

Equipe da FUNAIencontra um pedaço de flecha de indígenas isolados na mochila de um acampamentoabandonado por grupo paramilitar peruano que invadiu o Acre.

Quatro funcionáriose um sertanista da base da Frente de Proteção Etnoambiental Envira, mantidapela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), no igarapé Xinane estão cercados porgrupos paramilitares peruanos armados. Na tarde de ontem, Artur Meirelles,Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira (FPERE/FUNAI), emais dois mateiros que trabalham na Frente de Proteção, foram buscar maisvestígios na área. Encontraram um acampamento no outro lado do rio, onde haviaum colchão, muitos sacos de açúcar, e uma mochila com cascas de cartuchosroubados da base e um pedaço de flecha dos índios isolados.

"Os peruanosfizeram correria de índios isolados, como estava suspeitando. Temos agora umaprova cabal. Estamos mais preocupados do que nunca. Esta situação pode ser umdos maiores golpes já visto nos trabalhos de proteção dos índios isolados dasúltimas décadas. Uma catástrofe da nossa sociedade. Genocídio!”, afirmou CarlosTravassos, Coordenador Geral de Índios Isolados e Recente Contato (CGIIRC) daFUNAI.

A fronteira entreBrasil e Peru abriga a maior população de indígenas em isolamento na Amazônia.Ao longo da história, esses povos resistiram à violência das frentes econômicasdos processos de colonização da floresta.

Vistos comoobstáculos da exploração pelos seringalistas e caucheiros, esses povoscomeçaram a ser dizimados por meio das chamadas correrias. Os índios quesobreviveram fugiram para as zonas mais inacessíveis da mata. Hoje, essesíndios não mantêm contato permanente com a sociedade nacional.

Histórico da Invasão

No dia 23 de julho,um grupo armado de aproximadamente 40 pessoas vindas do Peru invadiu a Base deVigilância Xinane, da Frente de Proteção Etnoambiental Envira, da FundaçãoNacional do Índio (Funai). A equipe que trabalha no local é responsável porgarantir a proteção territorial dos grupos de índios isolados que vivem nestaregião do Acre fronteiriça com o território peruano. A possível invasão foialertada via rádio, no dia 11 do mesmo mês, por indígenas do povo Ashaninka quemoram na aldeia Simpatia, localizada a três horas de barco da Base.

O presidente daFunai comunicou o Ministério da Justiça e pediu apoio da Polícia Federal e doExército. Mas somente uma semana depois da invasão foi iniciada uma operação doComando de Operações Táticas (COT) e da CAOP (Coordenadoria de AviaçãoOperacional) na área, com o apoio logístico do Estado do Acre e do Exército."Pelo local ser muito distante, a PF não pode agir prontamente, necessitou dohelicóptero do exército. Mas também deveriam ter mandado um efetivo do exércitopara participar da operação, pois se trata de narcotraficantes e de uma forçaparamilitar estrangeira”, explica Carlos Travassos, Coordenador Geral de ÍndiosIsolados e Recente Contato (CGIIRC/FUNAI).

Durante a operação,a ajuda dos mateiros que trabalham na Frente foi determinante para a equipe de25 policiais da Polícia Federal conseguirem rastrear e prender, no dia 3 deagosto, o português Joaquim Antônio Custódio Fadista. O narcotraficante queatua no Peru já havia sido capturado na mesma base em março deste ano por ArturMeirelles, o atual Coordenador da Frente de Proteção Envira, e encaminhado aPolícia Civil do município de Feijó.

Após pesquisa maisdetalhada, ficou constatado que o português já havia sido expulso do Brasil, eprocurado pela Polícia Nacional peruana, por envolvimento com o tráfico dedrogas. A Polícia Federal brasileira foi acionada para os procedimentos domandado de prisão. Depois de ser interrogado, ele foi transferido para aDelegacia de Imigração e extraditado para o Peru. Mas no mês passado voltoupara Base do Xinane atrás da uma mochila, supostamente com droga, que haviaescondido na área meses atrás.

"Quando o portuguêsfoi preso nesta semana ele debochou da cara de todo mundo dizendo que logo iriasair e que ainda pagaríamos a passagem dele de volta”, contou Artur Meirellesque estava no local junto com a equipe da PF. O português disse coordenador daCGIIRC que viu o acampamento do grupo isolado Masko-Piro, nas cabeceiras doEnvira, na metade do caminho."Acho que esse cara, além de traficante, égenocida de índios”, afirmou Travassos preocupado.

Existe apossibilidade de o português estar contando com o apoio do Sendero Luminoso. Oshomens armados que foram avistados pela equipe da Frente da FUNAI, e pelosíndios Ashaninka, estavam com uniformes parecidos com o do grupo terrorista.Nos últimos anos, os remanescentes do Sendero Luminoso operam na florestaperuana em aliança com narcotraficantes.

Nesta quinta-feira,a equipe da Polícia Federal retirou todo mundo da base. Apesar de boa parte daequipe estar com vontade de continuar a operação, a ordem é que ela deveria serterminada nesta sexta-feira. O sertanista José Carlos Meirelles, que coordenoua Frente Envira por 23 anos, e a equipe da FUNAI composta por Carlos Travassos,Artur Meirelles, e mais dois mateiros contratados pela Frente, conhecidos comoMarreta e Chicão, decidiram ficar na Base. Na manhã do dia de hoje, foramdeixados pelo helicóptero da operação. "Já que ninguém deste Estado brasileirose dispõe a ficar aqui, tomamos a decisão de vir para cá”, explica osertanista.

Nesta sexta-feira àtarde, Meirelles mandou notícias via email, pois apesar da base ter sidobastante saqueada pelos peruanos, a internet continua funcionando: "Os carasainda estão por aqui. Correram quando o helicóptero chegou. Rastro fresco.Achamos vestígios de, no mínimo, 6 pessoas. Tem saco de dormir, plástico, cordaetc. Tem mato que foi quebrado há 15 minutos, escorrendo leite. Os peruanosficaram aqui no bananal, em frente à Base, no último dia da operação, apenasolhando a equipe da polícia ser retirada”.

O sertanista tambémdeu o seu recado para o mundo: "Ficaremos aqui até que alguém ache que umainvasão do território brasileiro por um grupo paramilitar peruano é algo quemereça atenção. Somos irresponsáveis, talvez. Mas antes de tudo existe umcompromisso maior com os índios isolados e os contatados, nossos vizinhos,Ashaninka”.

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