Um grupo de cerca de 200 sem-teto, a maioria índios e ribeirinhos, foi expulso à força por um grupamento da Polícia Militar (PM) do Amazonas. A Corregedoria da PM instaurou inquérito, na tarde desta terça-feira, para saber o motivo que levou a tropa a usar de violência na expulsão dos ocupantes de uma faixa de terra, aparentemente de propriedade privada, na localidade de Lagoa Azul, zona rural de Manaus.
O grupo que sofreu o ataque da PM era composto, além dos sem-teto, de 105 indígenas, de sete etnias diferentes, que estavam acampados na área de 180 mil m2. Uma comissão da PM, horas antes da batalha campal, avisou as famílias que o terreno seria desocupado. Diante da ameaça, um grupo de cerca de 30 índios optou por resistir, armados de arcos e flechas, contra um batalhão de 150 homens da PM, equipado com bombas de gás lacrimogêneo e com a o reforço de cães e da cavalaria.
Após o cerco efetuado pela PM, os ocupantes da terra se viram acuados e o desespero tomou conta dos assentados. Na correria, mulheres e crianças foram as principais vítimas. A índia Many Sateré, com o filho no colo, ainda, tentou sozinha impedir o avanço das tropas, mas foi rechaçada pela força dos soldados. Gritos de desespero e de dor foram ouvidos e alguns indígenas esboçaram uma reação e atiraram algumas flechas contra os pelotões que avançavam, mas foram neutralizados pela tropa. Um trator entrou, em seguida, para derrubar as tendas e barracas dos sem-teto. Ao todo 17 pessoas foram detidas - entre elas, quatro índios - e levadas para a prisão em Manaus. .
Em nota, após o incidente, o Comando da Polícia Militar do Amazonas alegou que policiais federais e promotores do Ministério Público Estadual (MPE); além de funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) foram comunicados da operação, mas nenhum deles esteve presente à expulsão dos indígenas e desalojados.
Em entrevista a jornalistas locais, o cacique Luiz Sateré, de 49 anos, líder da etnia seteré-mawé, denunciou os "excessos da PM" à Câmara de Vereadores de Manaus, à Assembléia Legislativa do Estado e ao Congresso Nacional. Ele conta que os soldados agiram com extrema truculência, sem sequer mostrar o mandado de reintegração de posse.
- Chutaram uma grávida como chutam uma bola. Desceram o cacetete, sem piedade, indistintamente - afirmou.
Segundo o líder indígena, a área toda foi grilada de sua tribo. Sem documentos que comprovassem a posse do terreno, as famílias que lá habitavam foram expulsas por ordem do Tribunal de Justiça do Amazonas, com base em título de terra apresentado pelo engenheiro civil Mitishu Inoue.