Tribos indígenas brasileiros articulam uma aliança com o Movimento dos Sem-Terra (MST) para promover uma onda de ocupações nas áreas cuja demarcação reclamam junto ao governo.
O cacique Jercinaldo Saterê-Awé, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), afirmou nesta quarta-feira que ainda não esgotou seu voto de confiança no governo Luiz Inácio Lula da Silva, mas advertiu que a paciência está no fim e a parceria com o MST pode ser acionada.
- Se continuar a ignorância contra o índio, não vai restar outro caminho senão essa estratégia, que não é boa para a imagem do país, mas infelizmente é a única que surte efeito - afirmou.
Representantes de 20 etnias entregaram nesta terça-feira ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, um documento detalhando às quase 200 terras indígenas não demarcadas, mal delimitadas, com homologação pendente ou alvo de disputa fundiária.
A principal delas é a reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, de 1,67 milhão de hectares, cuja homologação é disputada desde 1998. Bastos afirmou que o governo tem um compromisso afetivo e ideológico com a causa indígena e garantiu que, até o fim do mandato de Lula, todas as terras indígenas demarcadas no País serão homologadas.
Os índios abrandaram o discurso depois de o secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho, ter confirmado, na terça-feira de manhã, que eles serão recebidos em audiência por Lula no dia 10 de maio. Mesmo assim, os líderes não pretendem abrir mão da mobilização e das articulações com o MST, que começaram em 2001, por recomendação de missionários das Pastorais da Terra e Indígena. Thomaz Bastos também prometeu uma solução para a Raposa Serra do Sol até o fim do mês.
Os líderes indígenas decidirão nesta terça se mantém até o próximo dia 10 o acampamento que montaram na Esplanada dos Ministérios. Do total de 620 terras indígenas no País, 422 estão demarcadas. Dessas, 24 foram demarcadas no atual governo. Para este semestre, estão previstas mais 18 demarcações.
A estratégia dos indígenas inclui retomar propriedades ocupadas por fazendeiros em estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Eles reivindicam também a desconstituição de povoados, como o existente em Raposa Serra do Sol, construídos em terras tomadas de índios durante a expansão da fronteira agrícola, durante o regime militar. A maior parte desses povoados fica no Norte e Centro-Oeste.