Chegam a São Cristóbal desde Tila, Simojovel, Chenalhó, Chilón e outras regiões mais para homenageá-lo.
27/01/2011
Hermann Bellinghauen
La Jornada
Vem de décadas atrás, e de todas as regiões índias de Chiapas. Desde a madrugada tem chegado grupos fiéis desde Simojovel, Chenalhó, Chilón, Ocosingo, Tila, Las Margaritas, Motozintla. Das esquinas mais ocultas, dos “rincões mais esquecido da pátria”, como expressaram os zapatistas em 1994.
Celebram-se missas a cada hora; ao meio-dia e ao anoitecer, as mais solenes. Organizações políticas e sociais, grupos paroquiais, comunidades tzeltales, tzotziles, choles, mam, tojolabales, mais uma vez “dão cor” ao passo de Ruiz García, que como radioaficionado se identificava como “Caminhante”.
Durante as décadas de sua presença episcopal visitou a maior parte delas. Ainda não existiam as estradas e brechas que trouxeram a guerra a essas terras, mas o Tatik (como era chamado Samuel Ruiz) chegava. A pé ou sobre animais. Hoje são esses povos os que chegam, e amanhã terão de enterrá-lo aqui mesmo, na catedral que ocupa o centro desta cidade historicamente hostil a eles.
Em 1982 sucedeu uma terrível matança de indígenas em Wolonchán (Chilón). Naquela época “não havia quem contasse os mortos”, como disse uma vez Andrés Aubry. Mais de 50 vítimas esquecidas. Mais que em Actel, ocorrido em 1997, quando a notícia deu a volta ao mundo, que tremeu o governo da República e segue sendo uma ferida viva. Chiapas já outra, e Dom Samuel tinha grande mérito nele. Os índios já contavam. Não em vão aqui é um dos berços da consciência moderna dos direitos humanos.
O Centro de Direitos Humanos Frei Bartolomeu de las Casas, o Freiba, foi criado no final de 1988 pelo próprio Ruiz García; o presidiu até terça-feira, 24. O Freiba expressa hoje: “Em sua incansável luta pela defesa dos direitos humanos, foi inspirador e guia de várias organizações civis e de processos sociais na construção da justiça, mediador nos diálogos entre o Exército Zapatista de Libertação Nacional e o governo mexicano, um grande teólogo da libertação e impulsor da teologia índia. Foi candidato ao Nobel da Paz e recebeu distintos reconhecimentos por seu trabalho na defesa dos direitos humanos”.
O Freiba ratifica seu compromisso “de caminhar ao lado e ao serviço do povo pobre, excluído e organizado que busca superar a situação socioeconômica e política em que vive, tomando a direção e força para contribuir em seu projeto de construção de uma sociedade onde as pessoas e comunidades exerçam e desfrutem todos seus direitos em plenitude”.
Por sua parte, a Frente Nacional de Luta pelo Socialismo em Chiapas manifestou: “Não esqueçamos as mostras de solidariedade incondicional que nos brindou nas diversas etapas de luta e conflitos que temos enfrentado como povos indígenas e como organização, ante o Estado que não cessa em exterminar todo intento organizativo do povo”.
Recorda “sua colaboração e apoio incondicional às lutas em diferentes rincões do país, pela libertação dos presos políticos e de consciência, contra a exploração mineradora, pela apresentação com vida dos desaparecidos e o respeito aos direitos humanos, a favor dos oprimidos e explorados”.