Quando cessou o barulho dos tiros da incursão israelense a um hospital psiquiátrico de Belém, na quinta-feira, um palestino que sofre de esquizofrenia ameaçou se jogar de uma janela.
``Conseguimos fazê-lo descer. Falamos com ele devagar, com calma'', disse um médico. ``A situação agora é que todos os pacientes estão com medo. Eles estão em choque.''
Até então, o Hospital para Doenças Psicológicas e Mentais de Belém havia sido poupado nas várias ofensivas israelenses à cidade, desde o início do levante palestino, há três anos e meio.
Testemunhas contaram que soldados israelenses trocaram tiros durante uma hora com atiradores escondidos no hospital, que fica a cerca de 2 quilômetros da famosa praça da Manjedoura, local tido como o do nascimento de Jesus.
O Exército afirmou que militantes vinham se reunindo no edifício para planejar ataques contra israelenses. Soldados cercaram o hospital antes do amanhecer e pediram a rendição dos atiradores. Segundo o Exército, eles abriram fogo.
De acordo com o relato de testemunhas, foram presos doze homens, a maioria integrantes das Brigadas dos Mártires al-Aqsa, que fazem parte da Fatah, ligada ao presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat.
Mas Moussa Abu Hamid, diretor dos hospitais palestinos, negou que houvesse atiradores escondidos no hospital. Ele disse que, entre os presos, havia seis enfermeiras. Não houve feridos.
No hospital, um complexo cercado por palmeiras e um belo jardim, as enfermeiras tentavam acalmar os pacientes, que sofrem de doenças como esquizofrenia e depressão.
``Eles estão agitados'', disse Adel Eissa, diretor-administrativo do hospital. ``Não há justificativa para isso. Mas quem vai ouvir? Eles (os israelenses) dizem que é legítima defesa.''
``Estamos nos sentindo mal'', disse um paciente, que contou ter sido acordado pelos tiros e que acompanhou a ação de uma janela. ``Não estamos acostumados a ver soldados aqui.''
O combate abriu buracos nas paredes do setor administrativo do hospital, e os corredores ficaram cheios de vidro quebrado e gesso. Os médicos disseram que ainda não haviam entendido bem o que acontecera. Segundo eles, os soldados os impediram de deixar seus alojamentos para ir se reunir com os pacientes durante a incursão.
``Ouvimos tiros e algumas explosões. Não sabíamos o que estava acontecendo'', contou um médico que não quis ser identificado.
Ele disse não saber se havia militantes no hospital. ``Não vimos ninguém. Talvez houvesse algum procurado, mas eles não precisavam ter destruído o hospital.''