Rio de Janeiro, 16 de Outubro de 2026

In memoriam: José Comblin (1923-2011)

Quarta, 17 de Agosto de 2011 às 08:18, por: CdB

José Comblin nasceu em Bruxelas em 1923. Em 1958 veio como sacerdote para a América Latina. Esteve, sobretudo, no Brasil e no Chile, e de ambos foi expulso pelas ditaduras. Acompanhou muitas comunidades e foi assessor próximo de Dom Hélder Câmara, e de vários bispos do povo. Escreveu inúmeros livros e artigos, e pronunciou muitas conferências até o fim de sua vida de 88 anos.

1. Comblin esteve várias vezes em El Salvador. Participou em 2005 do primeiro Congresso Internacional de Teologia celebrado na UCA [Universidade Centro-Americana]. Falou sobre "Os padres da igreja latino-americana”, pensamento seu que já é clássico, e parabenizou a UCA por ter publicado as obras completas de Dom Oscar Romero.

Em 2010 veio pela última vez para o segundo Congresso de Teologia. Falou de um tema crítico e decisivo, que ele repetiu sem desanimar. O Cristianismo é fé que vem do Evangelho. Não é religião que nós fazemos. Por necessidade tem-se que estar no segundo, mas tem-se que viver do primeiro.

Foi comovente sua carta de aceitação do nosso convite. "Claro que aceito o convite. O assunto me convém. Mas tudo depende de uma circunstancia. Completarei 87 anos e não sei se celebrarei nesta terra ou no purgatório. O Senhor ainda não me comunicou.” Também publicou vários artigos nesta Revista Latino-americana de Teologia.

2. Durante décadas, Comblin insistiu nos pobres e oprimidos. Muito recentemente voltou a dizer: "Não nos enganemos. O mundo se divide entre opressores e oprimidos. Os primeiros são minorias. Os segundos, imensas maiorias”. Não existe globalização, pois a humanidade não está se fazendo homogênea, mas cada vez mais antagônica.

Em suas viagens a El Salvador a primeira foi ir ao mundo de pobres. A Pequim, lugar duramente golpeado durante a guerra, onde trabalha seu amigo, o Pe. Rogelio Ponseele. E ao Bajo Lempa, onde trabalha seu amigo, Pe. Pedro Leclerq. Assim se compreendem melhor suas palavras programáticas.

Nos meios de comunicação se fala dos pobres sempre de forma negativa, como dos que não têm bens, os que não têm cultura, os que têm para comer. Visto de fora, o mundo dos pobres é todo negatividade. No entanto, visto de dentro, o mundo dos pobres tem vitalidade, lutam para sobreviver, inventam trabalhos informais e constroem uma civilização diferente de solidariedade, de pessoas que se reconhecem iguais, com formas de expressão próprias, inclusive a arte e a poesia.

E quando completou 80 anos, eu o ouvi dizer: "Ter fé é muito fácil. Não é mais preciso ver os pobres”.

3. E veio a El Salvador para estar com Dom Romero, verdadeiro e ilustre padre da igreja. Após o Congresso, pudemos concelebrar a eucaristia de aniversario do Dom. Estávamos dentro da Catedral, e pude observá-lo detidamente. Um bispo da Guatemala leu uma homilia e, quando terminou, Comblin só fez um comentário que dele saiu espontâneo, com paz e com um tom de tristeza: "Convencional”. Os milhares de pessoas na praça mereciam outra coisa. Surpreendeu-me mais sua devoção. Mesmo distante do altar, ele participou plenamente da liturgia, com alva e estola. Respondia como um simples fiel. Rezou o Pai Nosso de mãos dadas com outros e deu a paz a outras pessoas ao seu redor. E se notava a devoção.

4. Faleceu de caneta na mão e os pés visitando comunidades. E me lembrei de outra eucaristia no México. Com a hóstia na mão, nos ofereceu com estas palavras: "Que o corpo de Cristo nos acompanhe até à última luta”.

Foi teólogo excepcional, cristão honrado, radical e devoto. Seguidor do Evangelho com toda naturalidade. E livre para estar em sintonia com Jesus de Nazaré e seu Deus.

Após sua morte, o chamaram "mestre” (O. Beozzo), "um desafio à inteligência acadêmica” (L. Boff), "guia inquieto e exigente como os antigos profetas, denunciando sempre nossas incoerências na fidelidade aos preferidos de Deus” (L. Álvez). Terminamos com o testemunho de Mônica Muggler, sua fiel acompanhante durante muitos anos: "Ele tinha o dom maravilhoso de reunir em uma grande família todos os que sonham com uma igreja mais humana, mais presente, mais amante e fiel a Jesus e seu Evangelho”.

[Trad. AJFC.
Enviado por Movimiento Teologías para la Liberación - Chile
Correo: opcion_porlospobres_chile@yahoo.com].

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