Em matéria publicada nesta terça-feira, o tradicional diário inglês Financial Times faz uma dura crítica à impunidade no Brasil. Em reportagem do correspondente no país, Jonathan Wheatley, o jornal aponta a corrupção e a violência como temas que expõe questões antigas e não resolvidas pelas autoridades brasileiras.
"A visão de Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo, e de seu filho Flavio, esgotados, na caçapa de um camburão a caminho da cadeia, no meio da noite, é uma das várias cenas que muitos brasileiros pensaram nunca ver. Maluf foi acusado de evasão de divisas de cerca de US$ 160milhões (?137m, £92m) em desvios de recursos de contratos públicos. Ele e seu filho foram presos após suspeita de que haviam conspirado para influenciar uma testemunha do caso", diz o jornal.
Mais impressionante do que a prisão dos Malufs, no entanto, "foi o habeas corpus concedido 40 dias após. A despeito de claras evidências contra eles, é pouco provável que voltem à custódia do Estado. Este, no entanto, não é o único crime de alta repercussão que pode acabar com um novo escândalo de impunidade", lembrou o FT.
- O crime faz parte da natureza humana em qualquer parte do mundo, mas o que o torna particularmente sério no Brasil é a impunidade - afirmou o deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ) ao diário inglês. Ele citou, como exemplo, os níveis de prisões de homicidas no Estado do Rio, que é de 5%, contra 92% no Reino Unido.
Nos casos de crimes menores, a situação é ainda mais desanimadora, como nos casos dos roubos, que são raramente punidos. Muitas pessoas apenas denunciam os casos de furtos de automóveis e residências apenas para propósitos securitários, pois não acreditam na possibilidade de reaver os bens.
"Mas nem tudo está perdido. Ao longo do ano, com o controle maior na comercialização de armas de fogo, o número de homicídios caiu em todo o país. O próprio deputado Biscaia, um promotor aposentado, aponta casos isolados de avanços no combate à violência, como a criação de um arquivo nacional de criminosos. Mas, em geral, diz ele, a situação continua "lamentável". Quanto aos crimes do colarinho branco, estes são aceitos geralmente como coisa da vida", afirmou o FT.
- Não há como participar de uma concorrência pública sem que esteja tudo combinado com antecedência. E o único jeito de conseguir receber o pagamento é através do pagamento de uma propina de 5% a 10% - disse o dono de uma empresa de engenharia em São Paulo ao repórter.
Este assunto está nas manchetes dos principais jornais do país há mais de cinco meses, com a presença de integrantes do Partido dos Trabalhadores no papel de maestros de um esquema de compra de votos e utilização de recursos ilegais em campanhas políticas na última campanha presidencial, em 2002.
"Mas na medida em que os erros vão se acumulando, fica claro que o aprimoramento do sistema de segurança brasileiro não é nenhum milagre. Muitas promessas de medidas para o setor tem sido desenvolvidas em níveis municipal, estadual e nacional. O problema é que, na hora de implementá-las, muitas são simplesmente abandonadas. Muita gente, em vários níveis da administração, ficam felizes em deixar tudo exatamente como está", concluiu o diário.