Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Impunidade da CIA não vira a página da História

Por Mário Augusto Jakobskind - Não é de hoje que circula a informação segundo a qual a Central de Inteligência dos Estados Unidos, a CIA, viola os direitos humanos. Desta vez há notícias inclusive que o Senado norte-americano concluiu que as torturas praticadas pela CIA foram “muito piores“ do que as divulgadas e reconhecidas oficialmente.

Sábado, 20 de Dezembro de 2014 às 13:00, por: CdB
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A impunidade da CIA na prática e crimes e torturas vem de longe
Não é de hoje que circula a informação segundo a qual a Central de Inteligência dos Estados Unidos, a CIA, viola os direitos humanos. Desta vez há notícias inclusive que o Senado norte-americano concluiu que as torturas praticadas pela CIA foram “muito piores“ do que as divulgadas e reconhecidas oficialmente. Pelo relatório apresentado, os métodos cruéis utilizados contra os prisioneiros de Guantánamo não foram eficientes para a obtenção de informações. Torturaram com o apoio do Pentágono e Departamento de Estado, como fizeram ao lon go da história. O que aconteceu a partir do governo de George W. Bush em Guantánamo e outras prisões depõe contra o gênero humano e remete à máquina do III Reich nazista. Mas quem se admira que o Estados Unidos pratique estes crimes pode estar desinformado ou até mesmo apagou da memória acontecimentos hediondos acontecidos no Cone Sul da América nos anos 60 e 70. Ou seja, não chega a ser um fato novo a responsabilidade norte-americana nos crimes de lesa humanidade ocorridos na América Latina. A CIA e a alta cúpula de sucessivos governos dos EUA, de democratas ou republicanos, deram sinal verde e até ministraram aulas de torturas. Ensinamentos desta mesma natureza foram dados a militares e policiais civis na chamada Escola das Américas. Alguns agentes, como Dan Mitrione, chegaram até a se deslocar pelo Brasil e outros países próximos para ensinar a torturar. Recebeu o agente da CIA capturado e morto no Uruguai por uma ação da guerrilha dos Tupamaros medalha da polícia mineira, depois de ter sido convocado pelo então governador Magalhães Pinto para ensinar tortura. Enquanto isso acontecia, figuras como Henry Kissinger davam o aval para a prática de torturas e assassinatos ao redor do mundo. Foi assim no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai, Paraguai, Bolívia e outros países das Américas, para não falar, por exemplo da Indonésia,na Ásia. Hoje, em vários dos referidos países inúmeros crimes de lesa humanidade são conhecidos e em muitos deles ocorreram julgamentos e condenações até de dirigentes usurpadores do poder. No Brasil, só depois de mais de 50 anos a Comissão Nacional da Verdade tornou oficial crimes que já se conheciam, mas não eram divulgados. A CNV encerra uma etapa ao demonstrar concretamente a culpabilidade do Estado brasileiro e dos responsáveis que mandaram no Brasil durante 21 anos, a começar pelos ditadores de plantão Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo, além dos 372 mencionados no relatório final. Os óleos queimados da história agrupados nos clubes militares, ou seja, os oficiais militares da Reserva que tinham voz de comando na ditadura e hoje não mais, protestaram com listas de supostas pessoas que consideram vítimas da guerrilha. Não tiveram a grandeza de reconhecer a responsabilidade pelo que aconteceu e que culminou com centenas de mortes e desaparecimentos. Como foi dito, esgotou-se uma etapa, Agora, resta saber se a sociedade brasileira aceitará passivamente que responsáveis pelos crimes lesa humanidade, ainda vivos, sigam sem julgamento, A legislação internacional é clara a esse respeito. Instâncias como o STF poderão ser mais uma vez consultados a dar um parecer até sobre a Lei da Anistia em função da tomada de posição da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Até mesmo porque virar a página de uma época tão hedionda como a representada pelos 21 anos de ditadura civil militar no Brasil não basta apenas oficializar o que aconteceu. É louvável, claro, conhecer os fatos, principalmente para as novas gerações. Mas havendo a possibilidade de se julgar quem cometeu crime de lesa humanidade será de grande utilidade para virar de uma vez por todas a página desta história. O mesmo raciocínio deve ser visto em relação aos recentes acontecimentos envolvendo a CIA. Os crimes cometidos, da mesma forma que no Brasil, eram de conhecimento nas altas esferas, porque o que se fazia era uma política de Estado. Nada impede, portanto, que os executores respondam pelos seus atos de barbárie, como estão a exigir inúmeras entidades ao redor do mundo. Torturadores e assassinos institucionais, sejam eles brasileiros ou estadunidenses e de qualqeur outra parte do mundo, não podem ficar sem responder pelo que fizeram. Se isto acontecer, novos facínoras institucionais continuarão em ação contando sempre com a impunidade. Não é este o mundo que os cidadãos com um mínimo de consciência querem. Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , será lançado dia 17, no Rio de Janeiro. Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas colunistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.
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