O mais grave problema das sociedades modernas é o da Previdência Social. Todos os países enfrentam, hoje, o déficit, decorrente de muitos fatores, entre eles o aumento da expectativa de vida dos trabalhadores. No caso brasileiro, segundo se informa, estamos chegando ao passivo de um trilhão de reais - mais do que a dívida pública geral da União.
Até o século 19, a previdência era uma instituição dos próprios artesãos, que mantinham sociedades de ajuda mútua, a fim de socorrer os associados nos casos de doença, morte ou invalidez. Com o desenvolvimento do capitalismo industrial, os salários eram tão irrisórios que impediam a contribuição. Os sempre menores recursos dessas associações passaram a ser mal recolhidos e mal administrados. Trabalhando 16 horas por dia, os trabalhadores tampouco tinham tempo para acompanhar a atividade das associações. Em muitos casos, havia fraudes e desfalques. O pior ocorria quando eles entregavam a gestão de seus recursos a gerentes contratados: houve casos em que tais gestores desapareceram com todo o patrimônio das entidades, sem deixar rastros. Coube a Bismarck substituir essas associações previdenciárias pelo sistema estatal. A medida foi a mais importante da biografia do estadista germânico, e imitada, depois, por quase todos os países do mundo.
Ao criar a previdência estatal, Bismarck colocou ordem no sistema, garantindo aos trabalhadores os benefícios do seguro social.
A previdência social no Brasil se estrutura no primeiro governo Vargas, embora houvesse instituições anteriores, entre elas a Caixa de Previdência dos Empregados do Banco do Brasil (Previ), criada em 1904. Naquele tempo, a expectativa de vida dos brasileiros mal passava dos 40 anos. Como a taxa de crescimento econômico fosse razoável, com a criação de empregos industriais, os institutos de previdência obtinham altos superávits e os deviam aplicar em imóveis, a fim de garantir o pagamento futuro aos beneficiários. Por outro lado, a lei estabelecia 3 fontes de receita para a Previdência: o empregador, o empregado e o governo. O governo, no entanto, nunca recolheu a sua parte, ao mesmo tempo que grandes empresas descontavam a contribuição dos trabalhadores em seus salários e não a recolhiam à Previdência - como tampouco recolhiam a sua própria parte. Isso ocorre até hoje, o que explica, em muito, a imensidão do déficit acumulado. O governo se eximiu, depois, da responsabilidade de contribuição.
Os institutos foram financiadores da construção de conjuntos residenciais para seus associados - principalmente em Brasília. Em 1961, a explosão inflacionária (determinada pela política econômica imposta pelo FMI ao governo Jânio Quadros) herdada por Jango, fez com que se esfarinhassem seus investimentos imobiliários: as prestações, sem correção monetária, caíram dramaticamente de valor real, levando os institutos ao início de sua crise financeira pela não reposição de capital.
O governo jogou na conta da Previdência novos encargos, sem receitas adicionais, como foi o caso do Funrural - com a aposentadoria automática dos trabalhadores agrícolas sem contribuição prévia - e o pagamento dos inativos do setor público. A todos esses fatores de base, se acrescentam os da fraude. Quando a previdência era segmentada, com institutos próprios para os funcionários públicos (Ipase), os trabalhadores na indústria (IAPI), os bancários (IAPB), os comerciários (IAPC), e outros, era mais fácil o controle. Os trabalhadores participavam da diretoria dos institutos, e os delegados regionais eram recrutados na própria categoria dos contribuintes. Isso permitia a fiscalização pelos diretamente interessados, o que coibia os fraudadores - embora sempre houvesse uma ou outra bandalheira. A fusão de todos os institutos em um só, durante o governo militar, tornou a previdência lenta e vulnerável à sanha concentradora dos governos ditatoriais e pós-ditatoriais e inerme diante das quadrilhas de fraudadores. Nem todas as quadrilha