Todos os jornais suíços saudaram a morte de Osama Bin Laden, alertando também que a batalha contra o terrorismo islâmico está longe de ser vencida e que sua "marca" continua viva.
"Príncipe do terror", "ícone", "monstro", "mártir" – não faltaram adjetivos nos editoriais de todo o país para descrever o líder da rede terrorista islâmica Al-Qaeda, morto pelas forças especiais americanas no domingo. Os jornais do país mostraram menos certeza quando descreveram o que a morte de Bin Laden poderia significar para a geopolítica mundial.
"Para os Estados Unidos finalmente chegou o 12 de setembro", declarou o Le Temps de Genebra. "Demorou dez anos, mas hoje podemos considerar plenamente as obsessões, o pessimismo e a paralisia que marcaram essa década."
Para o jornal, os Estados Unidos viveram todos esses anos com uma grande ferida, duvidando da sua condição de superpotência e de seu papel num mundo em mudança - dúvidas que desempenharam um grande papel ao levar Barack Obama ao poder.
"Anunciando o êxito de uma operação contra uma pessoa que os EUA consideravam o mal encarnado, Obama obteve uma vitória modesta, deixando implícito o surgimento de uma nova era para seu país. O momento é favorável não só do ponto de vista interno, mas também diante de um mundo árabe que não espera a saída de Bin Laden para iniciar uma de suas maiores mudanças."
O tabloide Blick disse que o "príncipe do terror" saudita vivia na Idade Média e no presente ao mesmo tempo, exigindo que as pessoas seguissem os preceitos intransigentes de 1400 anos de idade que ele disseminava com a mais alta tecnologia e os últimos princípios de marketing.
Para o diário de expressão alemã, Bin Laden passava "franquias para matar", como o McDonald's faz com os hambúrgueres, estabelecendo filiais autônomas da Al-Qaeda da Arábia Saudita à Indonésia.
"A marca Bin Laden deve sobreviver ao seu criador - o terror islâmico ainda não foi derrotado."
O Tages-Anzeiger de Zurique também destacou o poder da imagem de Bin Laden. "O fim de um ícone" foi sua manchete de primeira página.
Mas, apesar de sua "ideologia retorcida" continuar de pé e ainda haver grupos dispostos a continuar seu trabalho sanguinolento, o jornal acredita que a rede Al-Qaeda sem Bin Laden fica sem o seu "ícone inspirador", o que "deve dificultar o recrutamento de novos seguidores".
O Tages-Anzeiger também apontou que a Al-Qaeda já havia perdido o coração de muitos muçulmanos há muito tempo. "Bin Laden não conseguiu perceber que as pessoas no mundo islâmico querem mudanças, mas não o sonho de guerras santas ou a vida da época de Maomé. Elas querem liberdade, igualdade de oportunidades, respeito e dignidade".
O Neue Zürcher Zeitung concorda, dizendo que a morte do homem que desencadeou as guerras no Afeganistão e no Iraque, provocou um “rompimento” com o 11 de setembro, e não foi só com Washington. O jornal alerta, no entanto, que o terrorismo continua "virulento" - especialmente na Europa.
"O jihad continua sendo um perigo", disse. "Após a morte de Bin Laden, as organizações próximas à Al-Qaeda vão tentar, mais do que nunca, realizar ataques no Paquistão e também no Ocidente."
Ele destaca o problema do "terrorismo caseiro", a radicalização de convertidos ou de imigrantes muçulmanos de segunda geração no Ocidente. "A semente de Bin Laden foi semeada", afirma.
O Der Bund, da capital Berna, foi mais otimista, dizendo que embora o terrorismo islâmico não tenha morrido junto com Bin Laden, há esperanças de que tenha sido enfraquecido por um longo prazo.
"A Al-Qaeda existe sem o Bin Laden ... no entanto, a principal figura dos extremistas islâmicos, seu símbolo, foi eliminado e um fator motivador foi removido."
Para o Die Südostschweiz, Bin Laden continua sendo uma ameaça, exercendo um efeito de mártir. "O mundo está agora livre do monstro Bin Laden, mas não do monstro do fanatismo religioso."
Os jornais de língua francesa concordam em grande parte, embora a primeira página do Tribune de Genève levante a questão: "Foi preciso matar Bin Laden?"
Seu editorialista destaca que levou dias para a teoria da conspiração começar a circular após o 11 de setembro – negando o ataque ao Pentágono ou implicando o envolvimento da CIA – e poucas horas para aparecer após a morte de Bin Laden.
"Desde o momento da operação, que parece perfeito para a campanha eleitoral do presidente, à remoção (demasiada?) rápida do corpo [supostamente sepultado no mar], a intervenção não parece muito correta. O que Bin Laden poderia ter revelado se tivesse sido capturado vivo?"
Apesar disso, o jornal vê uma verdadeira esperança de mudança. "Amanhã, Barack Obama, livre do ícone aterrorizador de Bin Laden, poderá lançar uma política exterior construtiva, mais sutil e menos ideológica [do que a de George W. Bush]. Isso seria uma grande vitória sobre a Al-Qaeda."
Thomas Stephens, swissinfo.ch
Adaptação: Fernando Hirschy