A imprensa francesa questionou nesta sexta-feira a responsabilidade do governo em relação à morte de pelo menos 3 mil pessoas, vítimas da onda de calor que assola a França, enquanto a oposição socialista pede uma investigação parlamentar sobre o assunto. O governo admitiu pela primeira vez que as altas temperaturas no país, especialmente nas proximidades da capital, desde o começo de agosto, já causaram a morte de milhares de pessoas, principalmente idosos.
"Milhares de mortos: Sem críticas?", escreve o Libération em sua primeira página, referindo-se a uma semana de hesitação e "erros de avaliação".
O governo, que se defende das acusações de ter reagido com lentidão, anunciou uma plano de emergência que permite mobilizar mais recursos para os hospitais, depois de uma reunião presidida pelo primeiro-ministro Jean Pierre Raffarin, que interrompeu suas férias para tentar contornar as conseqüências políticas de uma catástrofe de tal grandeza. "Raffarin volta a Paris para conter a polêmica", destaca o jornal le Figaro, que acrescenta: "o chefe de governo quis corrigir a impressão, justificada ou não, de que seus ministros reagiram tarde demais".
A oposição socialista, por sua vez, anunciou que vai pedir uma investigação parlamentar para elucidar as responsabilidades do governo. O ministro da Saúde, Jean François Mattei, tratou de responder às críticas, garantindo que as autoridades estavam mobilizadas e insistiu: "estamos em estado de alerta máximo".
Mattei também informou que o sistema de saúde continuaria em estado de alerta, apesar da queda das temperaturas. "Não confiamos na baixa das temperaturas nestes dias, porque na próxima semana pode começar tudo de novo".
Para o primeiro secretário do partido socialista, François Hollande, "os socialistas pedirão a formação de uma comissão parlamentar de inquérito para que os franceses saibam o que ocorreu e o que não deve voltar a acontecer". "Nosso país enfrenta uma verdadeira catástrofe sanitária. O governo acaba de se dar conta do seu tamanho, quando há dias, inclusive há mais de uma semana, os médicos, diante da realidade do problema, alertavam os poderes públicos", disse Hollande.
A imprensa dá grande destaque às críticas de quem foi o primeiro a alertar sobre a dimensão do problema, o presidente da Associação de Médicos de Emergência, Patrick Pelloux: "Muitas vidas poderiam ter sido salvas", disse ele ao jornal Le Parisien. Pelloux questionou a Secretaria Geral de Saúde porque "não se conscientizou rapidamente da extensão da catástrofe". "O sistema desabou", disse, lembrando que antes disso, o sistema francês de saúde era considerado como um dos melhores do mundo.