Há tempos os jornalistas do tabloide britânico News of the World não conheciam limites. Auxiliados por detetives particulares, eles invadiam as caixas de mensagens de celebridades,. Ou de uma menina sequestrada e posteriormente assassinada, prejudicando a investigação da polícia. Mesmo os celulares de familiares de soldados mortos e de parentes de vítimas do terrorismo foram grampeados pelos repórteres.
Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Magnata Rupert Murdoch
A última edição do News of the world foi às bancas neste domingo, (10/07), com a manchete "Obrigado e adeus". O jornal – da editora News Corp, do magnata Rupert Murdoch, e que contava 7,5 milhões de leitores – foi fechado em consequência do escândalo de espionagem e invasão de privacidade. Mas, apesar da indignação pública, muitos britânicos devem comprar a última edição do jornal para guardar de recordação: por isso a tiragem foi duplicada para 5 milhões de cópias.
Entretanto, os casos de sensacionalismo extremo na mídia não são exclusividade dos britânicos. A própria Alemanha teve nos últimos anos seus escândalos jornalísticos. A conceituada revista Stern, por exemplo, publicou em 1983, com grande estardalhaço, os supostos diários de Adolf Hitler. A editora Gruner + Jahr pagou cerca de 9 milhões de marcos alemães (4,6 milhões de euros) pelos mais de 60 volumes.
Pouco tempo depois, descobriu-se que os jornalistas haviam sido enganados por um falsário. Mais tarde, o caso envolvendo o repórter da Stern Gerd Heidemann e o falsário Konrad Kujau virou até filme.
Escândalo de Gladbeck
A guerra pela audiência levou ao escândalo sobre o drama dos reféns da cidade de Gladbeck, no oeste alemão. No dia 16 de agosto de 1988, a dupla de criminosos Dieter Degowski e Hans-Jürgen Rösner invadiu uma filial do Deutsche Bank na cidade.
Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Repórteres alemães entrevistaram ladrões no drama de Gladbeck
Em sua fuga, que durou dois dias, os criminosos tomaram vários reféns. Em um ônibus, Degowski atirou e matou um menino de 15 anos, e durante a ação policial, morreu a jovem Silke Bischoff. Em alguns momentos o evento foi transmitido ao vivo pela televisão.
No centro de Colônia, jornalistas cercaram o veículo e entrevistaram os ladrões. Alguns deles chegaram a sentar no carro junto com os criminosos. O comportamento da mídia provocou um debate sobre a responsabilidade e os limites da cobertura.
Mas um caso como o do Reino Unido, em que os jornalistas intencionalmente violaram a lei, nunca aconteceu na imprensa alemã. Ella Wassink, porta-voz do Conselho de Imprensa da Alemanha, classifica como "improvável" o desenvolvimento desse tipo de jornalismo: "Não temos nenhuma razão ou evidência para acreditar que na Alemanha as coisas tomem esse rumo", avalia.
Autocontrole eficiente
Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Polêmica edição da revista 'Stern', de 25 de abril 1983
O Conselho de Imprensa alemão é um órgão de autorregulação voluntária, e também a central para reclamações sobre o trabalho da mídia e dos jornalistas. De acordo com Ella Wassink, nos últimos anos houve apenas algumas poucas queixas sobre os métodos de apuração dos jornalistas. Ela lembra que o escândalo na Inglaterra mostra a tabloidização dos jornais britânicos. Aparentemente "o público gosta desse tipo de jornalismo".
Os políticos britânicos, sejam de direita, sejam de esquerda, buscam se aproximar de Rupert Murdoch, cujos jornais dominam a imprensa no país. Sua posição de "todo-poderoso" é um dos principais motivos para o modo como o jornalismo é feito no Reino Unido, diz Michael Haller, diretor científico do Instituto de Pesquisa para a Prática do Jornalismo, de Leipzig. "Essa condição dá às redações a impressão de que podem tudo. E isso, em minha opinião, é o verdadeiro mal."
Na Alemanha, diz o pesquisador, não existe, até agora, nenhum grupo de mídia com tamanho poder. "Temos uma lei anti-cartel muito mais restritiva e rigorosa", destaca Haller. Com essa lei, o Escritório Federal de Cartéis proibiu em 2006 a aquisição do grupo de televisão privado Pro SiebenSat1 pelo Grupo Springer, que edita o tabloide Bild, jornal de maior tiragem da Alemanha.
Autor: Nils Naumann (ff)
Revisão: Augusto Valente