Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 2026

Imprensa brasileira

Por Mauro Santayana - Roberto Marinho foi um homem controvertido. Apesar da tentativa de separar a comunicação da política, todos os capitães da indústria editorial tiveram forte influência na construção de líderes no Brasil. (Leia Mais)

Sexta, 08 de Agosto de 2003 às 15:13, por: CdB

A morte de Roberto Marinho, que trouxe inegável comoção nacional, pede algumas reflexões sobre o que representou o século passado na História Brasileira, principalmente no que se refere aos meios de comunicação.

O jornalista e empresário foi, como todos os titãs da mídia, uma personalidade controvertida. Controvertida porque, apesar da tentativa de separar a comunicação da política, todos os capitães da indústria editorial tiveram forte influência na construção de líderes e na formação dos governos. Ele herdou, de seu pai, essa disposição de influir, que vinha da origem da imprensa brasileira. Se, por um lado, Roberto Marinho foi conservador, por outro, a sociedade lhe deve passos importantes para serviços.

Podemos lembrar um, ao qual poucos deram e estão dando atenção, nas manifestações de pesar pelo seu desaparecimento. Coube a Roberto Marinho fazer mais pela igualdade entre negros e brancos no Brasil do que dez leis Afonso Arinos, sem nenhum desapreço pela iniciativa do político mineiro. Ao dar a pessoas negras posição respeitosa em sua televisão, o doutor Roberto quebrou um tabu e contribuiu para que o imaginário popular, cujo fascínio pelas imagens luminosas é notório, visse os negros como pessoas merecedoras do mesmo Olimpo da fama.

Mas há outra reflexão, também exigida. O doutor Roberto dizia, com orgulho natural, que, em suas empresas mandava ele mesmo - e mais ninguém. Ele pode ter, na defesa de sua posição conservadora, ter optado por causas que este jornalista considera equivocadas, mas o fez na convicção própria de que agia corretamente. Era um brasileiro autêntico, que atuava na busca do equilíbrio entre as suas idéias e os seus interesses empresariais. Da mesma forma que Assis Chateaubriand, Geraldo Rocha, Horácio de Carvalho, Paulo Bittencourt, Júlio Mesquita e Júlio Mesquita Filho e Orlando Dantas, e o Conde Pereira Carneiro, Roberto Marinho contribuía, com seus editoriais e a colaboração da intelectualidade brasileira, para o debate democrático das idéias.
Cada jornal tinha a sua linha editorial, muito mais bem definida do que em nossos dias. Eram brasileiros os que controlavam a imprensa brasileira.
Estamos agora ameaçados de uma invasão estrangeira nos meios de comunicação, com essa esdrúxula e criminosa lei que autoriza a participação minoritária do capital externo na atividade. De nada adianta a ressalva, frágil, da lei, que determina que só os brasileiros poderão ditar o conteúdo desses meios de comunicação. Em primeiro lugar é difícil definir bem o que seja "conteúdo".
Em segundo lugar, todos sabemos que quem controla o caixa controla a opinião de qualquer jornal. E há ainda os artifícios legais, como os contratos de gaveta, e a provável fragmentação do capital restante entre testas de ferro, o que levará à desnacionalização rápida das empresas e da cultura brasileira.
Ainda há tempo para corrigir essa lei absurda, para a qual contribuiu uma esquerda desvinculada dos valores nacionais.


Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).

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