Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim pediu, nesta terça-feira, que os demais sócios da Organização Mundial do Comércio (OMC) cessem as trocas de acusações e assumam riscos em nome de um acordo final para a Rodada Doha.
– Toda história tem dois lados e acho que não vale a pena dizer que a culpa é de um ou de outro. Isso não me interessa. O que me interessa é que, em uma situação como esta, é necessário fazer o que nós fizemos: Assumir riscos – disse, ao chegar ao prédio da OMC, em Genebra, para o nono dia de negociações.
Segundo o chanceler, o Brasil assimiu riscos, "inclusive políticos", para contribuir com o êxito da Rodada.
– Claro que os mais ricos têm que assumir mais riscos do que os outros, mas todos têm que assumir riscos agora. Não haverá tempo para assumi-los depois. Se isso (a Rodada) termina agora, francamente, não vejo como poderemos retomar dentro de dois ou três meses. Isso seria uma ilusão total – argumentou.
Depois de uma longa noite de discussões, na qual a Rodada esteve a ponto de fracassar, o ministro insistiu em que o processo "continua por um fio".
Uruguai e Paraguai
Amorim defende que o problema "não é apenas de acesso a mercados de países emergentes".
– Há o outro lado também: Os interesses ofensivos dos países agrícolas desenvolvidos – lembrou.
O ministro considera que as exigências de Paraguai e Uruguai, seus sócios no Mercosul, são "legitíssimas", mas insiste em que se trata de um processo multilateral no qual todos precisam ceder um pouco. Ambos países afirmaram, na véspera, que não aceitarão um acordo que inclua o chamado mecanismo de salvaguarda, que permite a países em desenvolvimento voltar a subir tarifas frente a um aumento excessivo nas importações.
Para Amorim o centro do problema - e de uma possível solução - é o enfrentamento entre Estados Unidos, de um lado, e China e Índia, do outro. Se esses países entram em acordo, os demais se inclinariam a flexibilizar suas posições, ele acredita. O chanceler volta a se reunir nesta terça-feira com os ministros dos outros seis participantes-chave nas negociações (Índia, China, Estados Unidos, União Européia, Japão e Austrália), desta vez para avaliar propostas alternativas elaboradas por um grupo de altos funcionários.
Perto do fracasso
Nessa madrugada, as negociações da Rodada Doha estiveram bem próximas do fracasso mas ainda correm sério risco. Os ministros participantes do encontro dizem que vão buscar soluções para o impasse em relação aos alimentos, entre outros, no nono dia da reunião ministerial ( a mais longa da história da OMC). Mas eles admitem que o fracasso continua sendo uma possibilidade concreta.
"Se as pessoas não querem este acordo, não há um acordo melhor vindo, e é preciso considerar, se este fracassar, o que eles têm a perder", disse o comissário (ministro) europeu de Comércio, Peter Mandelson, antes de chegar para a reunião de terça-feira.
Uma fonte oficial afirmou que durante a madrugada as negociações estiveram "a um minuto" de serem suspensas, mas que em seguida foi lançado um novo esforço em busca de acordo.
A chamada Rodada Doha do comércio global foi lançada em 2001, com o objetivo de ajudar os países pobres por meio das exportações. Há a percepção de que o encontro ministerial de Genebra é a última chance de concluir o tratado antes que o processo seja atropelado pelo calendário eleitoral dos EUA e por outros fatores políticos.
Neste momento, o principal entrave é o chamado "mecanismo especial de salvaguardas", destinado a proteger pequenos produtores rurais de países pobres contra enxurradas de importações e quebras nos preços.
Alguns países em desenvolvimento, como Paraguai e Uruguai, são contra esse mecanismo, alegando que os priva de importantes mercados em outros países em desenvolvimento.
A China, que participa de sua primeira rodada de negociações na OMC, acusou os EUA de fazerem exigências excessivas aos países pobres.
– O ponto crucial das atuais sérias dificuldades que surgiram nas negociações da Rodada Doha é que, tendo protegido seus próprios interesses, os Estados Unidos estão pedindo (aos países em desenvolvimento) um preço alto como o céu – disse o ministro chinês de Comércio, Chen Deming, na noite de segunda-feira à agência estatal de notícias do seu país, a Xinhua.
Acrescentando mais um atrito à pauta, nove países da UE (um terço do total, entre eles a influente França) exigiram na segunda-feira que o bloco negocie termos melhores para si.
Cerca de 30 representantes de alguns dos principais países da OMC discutem desde a semana passada em Genebra formas de reduzir subsídios agrícolas e derrubar tarifas de produtos agrícolas, industriais e de serviços, que são os principais objetivos da Rodada Doha.