Deixando o imaginário do cinema, o produtor Paulo Branco revela, em Locarno, sua preocupação com a crise em Portugal, onde muitas pessoas vivem grandes dificuldades . Em Locarno, ele preside este ano o júri da competição internacional, da qual não participam nem filmes portugueses e nem brasileiros. Numa entrevista exclusiva, Paulo Branco fala de cinema, avalia a crise na produção dos filmes e fala da crise economica em Portugal.
Deixando o imaginário do cinema, o produtor Paulo Branco revela, em Locarno, sua preocupação com a crise em Portugal, onde muitas pessoas vivem grandes dificuldades .
O portugues Paulo Branco, que emigrou para a Inglaterra em 1971 e depois para a França em 1973, de onde chegou a ser expulsou por ser clandestino, é hoje um dos maiores produtores do mundo do cinema independente e de arte.
Em Locarno, ele preside este ano o júri da competição internacional, da qual não participam nem filmes portugueses e nem brasileiros. Numa entrevista exclusiva, Paulo Branco fala de cinema, avalia a crise na produção dos filmes e fala da crise economica em Portugal.
Como o cinema se sai das crises que estamos vivendo ?
O cinema faz parte do imaginário de todos e portanto atravessa os períodos de crises sem crise. Quando houve a crise de 1929, havia uma grande público para o cinema tanto nos EUA como no mundo, portanto a crise não afeta. Ao contrário parece que as pessoas, em épocas de crise, precisam ver mais fições para se esquecer da realidade.
Houve pedidos de produção de filmes na África lusófona, há algum em produção?
Não, como sabe no cinema feito na África só uns poucos têm acesso para filmar as múltiplas fições. A Africa em si é um tema, com um fantástico imaginário para ser aproveitado pelo cinema, mas infelizmente isso não acontece por razões diversas mas próprias das dificuldades existentes na África. Eu acompanhei de perto a produção de um grande artista da língua portuguesa, o falecido Rui Duarte Carvalho, e a única fição que fez foi filmada em Cabo Verde, além de documentos sobre angolanos, documentários únicos. Portanto, minha ligação com a África tem sido muito desenvolvida mesmo porque meu eixo de trabalho está em Portugal e na França. E tem existir uma impossibilidade de eu produzir além dos que faço no momento.
Além de Manoel Oliveira, Raul Ruiz, que produção gostaria de destacar ou que está fazendo agora...
Acabei de produzir dois filmes rodados em Portugal, um sobre o assassinato de Humberto Delgado, chamado Operação Outono, obra de um jovem cineasta, Bruno de Almeida, e o último filme do Fernando Lopes, que é um grande cineasta português. Tenho outros projetos mas não gosto de falar deles antes de serem realizados. A minha relação com o cinema brasileira estava ligada à minha amizade, na época, com Glauber Rocha e com Nelson Pereira dos Santos, produzi um filme da Suzana de Moraes e pouco fiz nesse setor pelos mesmos motivos já explicados. O meu esforço maior foi quando não havia produção contínua em Portugal, fazendo redescobrir os cineastas portugueses e mesmo reinventá-los. E também descobrir cineastas na França, onde vivo, e a partir daí passei a trabalhar com outros cineastas, como lituanos, suíços e agora canadenses, mas isso são acasos de encontros. Na América Latina, trabalhei muito com o Ruiz, com o Hugo Santiago, Eduardo Gregório, portanto. Tenho a abertura para os continentes desde que surjam cineastas com projetos que me seduzam.
Falou em cineasta suíço me lembrei do Alan Tanner, um dos maiores da Suíça, e do alemão Wim Wenderes...
Com ambos tive uma relação contínua com muitos filmes. Um filme de Tanner que marcou foi A Cidade Branca. Tenho abertura e curiosidade para descobrir nvoas cinematografias, novos diretores, colaborar com cineastas com carreira mas pelos quais tenho admiração. Isso é o que se traduziu em tudo quanto fiz até agora.
Voce saiu de Portugal em 1971 e como se transformou no grande produtores conhecido de todos nós ?
São as transformações habituais dos jovens, sobretudo quando vivia, no fim dos anos 60 e começos de 70 de um clima no qual estávamos cortados completamente da Europa pelo regime político no qual vivíamos, mais a nossa curiosidade e necessidade que temos de conhecermos outros universos que escapassem do regime que obstavam quaisquer tipos de outras possibilidades. E foi assim que em 1971, no último ano da universidade, decidi não acabar o curso mas ir para Londres e a partir daí houve uma sucessão de acontecimentos que me levaram para a produção, quando nunca na minha vida pensei em ser produtor de cinema. Mas a profissão de cinema não se aprende mas é um misto de risco e do prazer do desconhecido e aos mesmo tempo de partilhar o imaginário dos outros e foi aí que encontrei o meu caminho.
Como é que você vê essa crise em Portugal que é uma crise não só européia como do capitalismo?
Vivemos um situação única e nos defrontamos com problemas que nunca pensamos que iríamos ter ou que sempre escondemos a existência. Como cidadão sinto a gravidade da situação e sem poder agir e ser obrigado a aceitar soluções que talvez não sejam as melhores. Soluções neoliberais que, no fundo, penso, irão aumentar ainda mais o fosso entre os que têm e não têm posses. E esse mito de que só com soluções neoliberais se poderá ultrapassá-la. Mas pode ser gravíssima não só para Portugal mas todo contiente europeu e só espero que acha um mínimo de bom senso, que, no momento, não acho estar havendo. Com relação ao cinema e à cultura, sempre sobrevivemos, nunca tivemos a atenção necessária, sobretudo em países pequenos como Portugal, em situações difíceis e é o que vai acontecer, mas esse é o mal menor em relação a tudo que vejo na sociedade e às dificuldades que a maior parte dos cidadãos estão a sofrer.
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