Absorvido o impacto dos ataques de 11 de setembro de 2001, alguns cardeais católicos da Europa querem conquistar os muçulmanos como aliados para uma ameaça a ambas religiões - a falta de religiosidade na vida moderna.
Os líderes da Igreja católica, hoje reunidos em Roma para eleger o sucessor do papa João Paulo II, expressaram preocupação com o Islã logo depois dos ataques contra Nova York e Washington em 2001, e chegaram a encarar o islamismo como um rival espiritual para o novo pontífice.
Mas agora muitos deles, incluindo vários papáveis, estão reforçando a necessidade de trabalhar com o mundo islâmico, e não contra ele. O islamismo é a segunda maior religião na
Europa. Essa união, para eles, seria uma contribuição para a paz.
- Cristãos e muçulmanos que vivem juntos devem tentar se encontrar e dialogar para rebater os rumores de um choque de civilizações - disse recentemente o cardeal de Milão, Dionigi Tettamanzi, pedindo aos italianos que tentem conhecer melhor os muçulmanos.
Para o cardeal de Bruxelas Godfried Danneels, isso é ainda mais necessário por causa da crise da religiosidade. As igrejas se esvaziam cada vez mais na Europa, enquanto as pessoas se voltam para modas espirituais, para o secularismo ou simplesmente adotam a indiferença à fé.
- Só há uma coisa importante na Igreja e no mundo, e é manter viva a idéia de Deus e o caráter espiritual do ser humano e do mundo - afirmou ele na semana passada.
A Europa, reduto do cristianismo, hoje abriga cerca de 15 milhões de muçulmanos, cuja lealdade à crença deixa muitos líderes católicos com inveja. A militância islâmica incluiu o medo e a desconfiança nas relações com essa religião. Mas, para o cardeal de Veneza Angelo Scola, que acaba de lançar uma revista sobre a união entre cristãos e muçulmanos, será na Europa, onde as duas fés se opõem desde as Cruzadas, que ambas vão finalmente se entender.
O próprio papa João Paulo II incentivou mais relações com o Islã e visitou uma mesquita de Damasco em 2001.
O cardeal de Londres Cormac Murphy-O'Connor acredita que há poucas oportunidades para realizar tal diálogo em países predominantemente muçulmanos, mas disse esperar que as inter-relações no Ocidente "cresçam e façam incursões" nos países islâmicos.
Essa opinião, porém, não é unânime. O cardeal Joseph Ratzinger, o fiscal doutrinário de João Paulo II, rejeitou no ano passado a idéia de a Turquia entrar na União Européia, afirmando que o Islã era uma outra cultura, e que os turcos deveriam se agrupar com os árabes.
- É muito comum na Itália os padres citarem Oriana Fallaci - disse o padre Daniel Madigan, especialista em Islã da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, referindo-se à autora de best-sellers que criticam o Islã e os países árabes.
Para Dalil Boubakeur, chefe do Conselho Muçulmano Francês, que representa a maior comunidade islâmica da Europa, a visão conciliatória está se disseminando.
- O Islã e a Igreja viram-se ambos defendendo a fé, o sagrado, as tradições e o respeito pelas estruturas - afirmou.
Ao mesmo tempo que busca mais diálogo, a Igreja tem falado mais abertamente sobre seus problemas com os muçulmanos, como a repressão religiosa em países como a Arábia Saudita.
Igreja vê Islã como aliado na luta contra falta de fé
Terça, 12 de Abril de 2005 às 12:14, por: CdB