Desde o início dos anos 90, o setor progressista da igreja católica (as diversas pastorais, dioceses e movimentos laicos) vêm promovendo um conjunto de mobilizações chamadas de semanas sociais para debater problemas do país como a dívida social, a soberania, e a distribuição de renda. Neste fim-de-semana, um seminário em Brasília marcou o encerramento da quarta edição da Semana Social, que teve como tema a construção de um Mutirão por um Novo Brasil. O próximo passo desta construção, segundo concluíram os presentes, passa agora pela necessidade de endossar as grandes iniciativas populares do próximo período.
Finalizando em um momento de transição entre o 1o e 2o mandatos presidenciais de Lula, a 4a Semana Social avaliou a experiência dos últimos quatro anos para apontar como desafio a construção de um novo país como um processo que não pode se reduzir à análise das ações do governo federal.
- Cada um saiu do seminário convicto que, de um lado, não se pode colocar tudo na conta do governo, há que se continuar um mutirão por um novo Brasil - diz Dom Demétrio Valentini, coordenador da 4ª Semana Social e presidente da Cáritas.
Este mutirão se baseia na busca pela inversão que norteiam a sociedade brasileira hoje.
- Um terço da população está abaixo da linha da pobreza, temos que ter um projeto de desenvolvimento que não privilegie só o capital mas a dignidade das pessoas, que dê trabalho para todos e educação de qualidade - diz Dom Geraldo Majella, presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A visão "governocêntrica" dá lugar agora a uma linha voltada ao fortalecimento da ação dos movimentos sociais, aos quais as entidades da jornada agora vão intensificar sua inserção em suas campanhas e iniciativas. A principal delas é a Assembléia Popular, espaço resultante da união da 4ª Semana com as mobilizações de movimentos campesinos e de organizações ligadas à campanha contra a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).
- A semana como tal se encerrou mas encontramos pistas de articulação. A principal delas é valorizar a nova realidade que se criou com a Assembléia Popular. Esperamos suscitar assembléias locais e regionais não só no âmbito das cúpulas, valorizando os fóruns dos movimentos e suas iniciativas - explica D. Demétrio Valentini.
Segundo a coordenação da 4ª Semana, a primeira iniciativa a ser apoiada será a mobilização pela anulação do leilão da empresa Vale do Rio Doce. A idéia das entidades é somar-se a esta mobilização, definida como uma das prioridades na plenária nacional da Assembléia Popular realizada na última semana também em Brasília e que deve resultar em um plebiscito popular sobre o tema.
- Abraçamos esta iniciativa pela importância que tem esta empresa. Queremos discutir qual o papel social das empresas e como o Brasil precisa repensar o seu patrimônio - continua o coordenador da 4ª Semana. Ele cita também outras mobilizações definidas como prioridades no âmbito da Assembléia Popular que serão fortalecidas pelas entidades da jornada, como a campanha pela redução da tarifa energética e pela valorização do salário mínimo.
Seguindo movimento capitaneado pela CNBB durante o período eleitoral, as lideranças da semana incluíram nos temas a serem trabalhados a reforma política.
- A corrupção, este mal, deve ser atacado pois pode levar à destruição da democracia se o povo perder confiança na política - indica D. Geraldo Majella.
- Se as semanas sociais são projeto de longo prazo, uma tarefa urgente é avançar na democracia participativa - continua D. Aldo Pagotto, outro líder do processo. Segundo Pagotto, a reforma política se apresenta como pauta emergencial para combater o problema da corrupção e ao mesmo tempo mudar o processo decisório do Estado brasileiro para que a sociedade organizada possa influir nas decisões tomadas não somente na escolha de seus governantes em época de eleições.
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