Para muitos dos cardeais que estão em Roma para sepultar o papa João Paulo 2o. e eleger seu sucessor, a tarefa é clara - encontrar alguém que seja bem parecido com o polonês morto no sábado.
- Talvez seja a melhor forma de resumir: precisamos de outro João Paulo II - disse o cardeal sul-africano Wilfrid Napier.
- Um papa do povo, que tenha um apelo e um desafio especiais entre os jovens.
Enquanto centenas de milhares de católicos gastam horas na fila para poder passar alguns segundos perto do corpo do papa, na Basílica de São Pedro, muitos dos cardeais reunidos ali perto dizem que o novo papa deve ser capaz de obter um respeito e um amor similares.
- Sinto que o papa João Paulo II foi aceito por todos, dentro e fora da comunidade da Igreja, e acho que ele foi a figura papal que conseguia realizar as esperanças de todos - disse o cardeal indonésio Julius Darmaatmadja.
Opiniões como essas não chegam a surpreender, já que 115 dos 117 cardeais eleitores do conclave devem sua posição a João Paulo II.
Os cardeais africanos, especialmente, dizem buscar um sucessor que mantenha a rígida linha doutrinária de Karol Wojtyla, que nunca cedeu na sua tradicional oposição à ordenação de mulheres, à contracepção e ao homossexualismo.
- A Igreja precisa de um líder que seja tão fiel aos seus ensinamentos quanto possível, mesmo que for uma opinião minoritária - disse o ganense Peter Turkson.
- A Igreja não sobrevive por si só. É Deus, é Jesus quem nos salva. Então é a Sua vontade que devemos reconhecer. E essa pode ser uma opinião minoritária, a ser rejeitada e sofrer oposição. Não sei em quem vou votar, mas é possível que seja escolhido um papa africano.
O sul-africano Napier também quer um papa com as visões de João Paulo II e, se possível, de um país da África, da América Latina ou da Ásia, onde vivem dois terços dos 1,1 bilhão de católicos.
- Seria ótimo, é claro, se houvesse alguém do vibrante Sul, onde a fé é vivida com grande dose de entusiasmo e não simplesmente como um costume ao qual se é obrigado - afirmou.
Mas o cardeal Bernard Agre, da Costa do Marfim, acha remota a possibilidade de o próximo papa ser negro.
- Psicológica e espiritualmente, o Ocidente não está pronto para saudar um papa negro. Não se exclui falar nisso, mas é da mentalidade das pessoas. Vai levar tempo para que elas se acostumem com isso.
A data para o conclave ainda não foi definida, e poucos cardeais falam abertamente sobre seus candidatos.
O polonês Zenon Grocholewski causou surpresa ao dizer que o alemão Joseph Ratzinger é uma "personalidade forte," mas que, aos 77 anos, pode ser considerado velho demais para o cargo.
O norte-americano Francis George ousou apontar dois cardeais que ele considera favoritos. Em entrevista ao Chicago Tribune, ele citou o italiano Dionigi Tettamanzi, por sua capacidade de defender a Igreja diante da ciência moderna, e o nigeriano Francis Arinze, por suas qualidades no diálogo inter-religioso e na evangelização.
Ele disse ainda que, se a principal tarefa do novo papa for cuidar dos mais pobres, os cardeais devem olhar para candidatos da América Latina e das Filipinas.
Igreja procura papa à altura de João Paulo II
Terça, 05 de Abril de 2005 às 15:58, por: CdB