Barbosa reafirma que o Brasil escolheu o caminho do crescimento
Uma forte aceleração dos preços no atacado, provocada por variáveis como a alta na cotação da moeda norte-americana e a alta no consumo das famílias, apesar dos juros mais altos, levou o Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) a apresentar uma escalada 1,50% em setembro, ante elevação de 0,15% em agosto, informou a Fundação Getulio Vargas (FGV) nesta sexta-feira. O resultado ficou pouco acima da expectativa em pesquisa da agência inglesa de notícias Reuters de alta de 1,44%, de acordo com a mediana de 27 projeções que variaram de 1,02% a 1,54%.
Em 12 meses o IGP-M, utilizado como referência para a correção de valores de contratos, como os de energia elétrica e aluguel, acumula alta de 4,40%. Em relação à segunda prévia de setembro houve aceleração, após alta de 1,36% no período. O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que mede a variação dos preços no atacado e responde por 60% do índice geral, teve alta de 2,11% em setembro, ante avanço de 0,14% em agosto. Já o Índice de Preços ao Consumidor, com peso de 30% no índice geral, acelerou a alta para 0,27%, contra 0,09% visto no mês anterior.
O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), por sua vez, registrou elevação de 0,43%, acelerando ante alta de 0,31% na apuração de agosto. O INCC responde por 10% do IGP. O resultado do IGP-M de setembro mostra que a alta dos preços no atacado continua acelerando, em meio à recente valorização do dólar ante o real, o que aumenta as perspectivas de impacto maior sobre os preços no varejo.
O índice calcula as variações de preços no período entre os dias 21 do mês anterior e 20 do mês de referência.
Dólar a R$ 2,20
Para ex-secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, o O Brasil não pode mais contar com ganhos cambiais para controlar a inflação e o governo deveria manter a cotação do dólar acima de 2,20 reais para impulsionar a indústria doméstica. Em seu primeiro discurso público no Brasil depois de deixar o cargo, em junho deste ano, Barbosa pareceu mais sincero sobre os desafios que o governo da presidente Dilma Rousseff enfrenta, num momento em que tenta melhorar o crescimento econômico ao mesmo tempo em que combate a inflação.
Ele afirmou que o real se valorizou excessivamente em termos reais nos últimos anos, tanto que "a gente não tem mais o espaço para apreciação cambial que tinha 10 anos atrás para ajudar o controle da inflação. O mecanismo de transmissão cambial hoje continua existindo mas é num volume muito menor do que no passado".
– Agora, eu acho que o câmbio ir muito abaixo de R$ 2,20 (reais por dólar) neste momento não é muito recomendado. Como também ele ficar a R$ 2,50 seria muito excessivo comparado com o que você viu em outros países – disse ele a jornalistas após uma conferência econômica.
O dólar, que estava em torno de R$ 1,55 em meados de 2011, quando o real estava fortemente valorizado, chegou a subir para R$ 2,45 no final do mês passado em meio às perspectivas de menos estímulo dos Estados Unidos e à deterioração dos fundamentos econômicos do Brasil, o que afetou o apetite dos investidores por risco.
Barbosa afirmou que Dilma está tentando impulsionar a competitividade industrial através da promoção do investimento em infraestrutura e educação, mas reconheceu que tal estratégia só renderá frutos no médio a longo prazo. No curto prazo, disse ele, o governo só tem duas opções para reduzir os crescentes custos trabalhistas do Brasil: ou eleva o desemprego e sacrifica o crescimento econômico como a Europa está fazendo; ou enfraquece o real para reduzir os salários reais em moeda estrangeira.
– O Brasil escolheu a alternativa do crescimento. Qual o problema com essa estratégia? Leva algum tempo para funcionar. Pode não ser rápido o suficiente para ajustar os custos trabalhistas no ritmo que o balanço de pagamentos precisa – disse Barbosa na conferência econômica.
Embora reconheça que um real mais fraco é necessário para sustentar a economia, Barbosa disse que o governo deveria manter seu regime de câmbio flutuante, evitando uma forte alta do dólar que alimentaria a inflação, mas também "resistindo à tentação" de fortalecer demais o real para cumprir a meta de inflação do país.
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