Rio de Janeiro, 02 de Setembro de 2026

Idéias e poder

Por Mauro Santayana - Ao publicar uma antologia de seus discursos, Carlos Lacerda deu-lhe o título de "O Poder das Idéias". As idéias de Lacerda eram dinâmicas, posto que eram mutantes. O jovem comunista de 1934 se tornou um dos ícones da ação conservadora no Brasil, aliado dos americanos contra Vargas, contra Juscelino, contra Jango. (Leia Mais)

Domingo, 30 de Novembro de 2003 às 21:11, por: CdB

Ao publicar uma antologia de seus discursos, Carlos Lacerda deu-lhe o título de "O Poder das Idéias". As idéias de Lacerda eram dinâmicas, posto que eram mutantes. O jovem comunista de 1934 se tornou um dos ícones da ação conservadora no Brasil, aliado dos americanos contra Vargas, contra Juscelino, contra Jango. Quando o feitiço virou-se contra o feiticeiro, ao ser rejeitado pela ditadura militar que fomentara e apoiara, Lacerda buscou compor-se com os líderes nacionalistas no exílio, na tentativa da "frente ampla", que se frustrou, privada de apoios militares e políticos. Mas não se negue força ao título. As idéias têm poder, desde que haja idéias.

De idéias anda escasso o Parlamento. De idéias reais, concretas, são jejunos os partidos políticos. Por isso, a partir da inegável capacidade de Fernando Henrique em dar férias às doutrinas políticas, não tem sido difícil ao governo - a qualquer governo, pelo que parece - obter o que pretende do Congresso, em nome da razão prática. O pragmatismo exige a reforma da Previdência - e as idéias, mesmo as do PT, pedem licença para deixar o plenário, contemplar as águas que cercam o grande conjunto e, provavelmente, fumar ao ar livre.

Se a senadora Heloísa Helena tem razões práticas para opor-se à reforma da Previdência, ou se é orientada apenas pelas suas idéias de esquerda, não sabemos. Mas o que parece - e, em política, o que parece é tudo - a sua emoção ao negar apoio ao governo, no caso da Previdência, era sincera. Ela, que sempre acompanhara o seu partido, ao pedir mais direitos aos pensionistas e aposentados, via-se na contingência de os negar, em nome da saúde orçamentária.
Manteve fidelidade às suas idéias. Se ela será expulsa, ou não, do partido, não lhe deve importar, mas, importa, sim, a consciência de que não pode fugir de suas próprias idéias.
Desde que Galileu aceitou a abjuração, mesmo se consolando no murmúrio de que, no entanto, a Terra se movia, e que Giordano Bruno preferiu ser levado à fogueira, a escolha entre as idéias e as razões práticas é definida pelo caráter de cada um.

O PMDB não tem conseguido voltar aos tempos de Ulysses, de Severo Gomes, de Tancredo, de Oscar Pedroso Horta. O senador Renan Calheiros bem que se esforça em portar idéias, mas, seja porque elas pesem muito, seja porque o projeto de poder de sua ala não conta com os votos, mas com a adesão, tem procurado transformar o partido no principal suporte da política econômica. Espera-se que as medidas, amargas agora, tenham um efeito purificador, e permitam a tão esperada recuperação do desenvolvimento econômico. Do contrário seria a continuação dos sacrifícios, a fim de enriquecer os banqueiros, nacionais e estrangeiros, mediante as altas taxas de juros do mercado.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).

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