Ao desempenhar um novo papel – o de desafiador de Nadal e Djokovic – Roger Federer tentará a partir desta segunda-feira (23) reeditar seu sucesso de 2009 sobre o saibro de Roland Garros.
Na entrevista a seguir, Pierre Paganini, preparador físico de Federer, garante que o campeão suíço ainda está no topo de sua forma física e técnica
Há mais de dez anos, Pierre Pagani trabalha a musculatura e a movimentação de Roger Federer. Ele acompanha o campeão aproximadamente 140 dias por ano e também treina, paralelamente,
de Stanislas Wawrinka, outro suíço bem colocado no circuito mundial do tênis. Na entrevista a seguir, quando começa Roland-Garros, Pierre Paganini fala da chave do sucesso de Federer a longo prazo e explica que a idade não altera suas capacidades físicas e tenísticas.
Pierre Paganini: Sua forma vai crescendo durante o torneio. Sua movimentação e seu jogo estão melhores do que no ano passado no mesmo período.
Depois do torneio de Monte Carlo, ele treinou intensivamente durante duas semanas. Durante a temporada, a preparação física se divide em três blocos de base: um em dezembro, um entre fevereiro e abril, conforme a agenda, e o terceiro no verão. Por vezes, um quarto bloco é acrescentado durante o outono. Isso permite a Roger de se preparar constantemente para os momentos mais importantes.
Cada bloco dura de duas a três semanas no mínimo. O enfoque é o trabalho de fundo, tanto no nível físico que tenístico. Os diferentes tipos de treinamento são repartidos de maneira que ele possa aprofundar e se recuperar desse trabalho e, sobretudo, exprimir o melhor depois nas quadras. Entre esses blocos, existem semanas intensivas de manutenção da condição física e de prevenção de lesões.
Pierre Paganini, o homem que prepara Roger Federer e Stanislas Wawrinka. (swissinfo)
swissinfo.ch: Existe algum treinamento especial antes de Roland-Garros?P.P.: Para se adaptar aos diferentes pisos, ele faz treinamentos específicos a nível muscular e cardiovascular. No saibro, o quadríceps trabalha mais para escorregar. Em outros pisos, a musculatura do pé e da panturrilha é mais importante. Mas, finalmente, o fundamental continua sendo o esporte.
swissinfo.ch: O saibro é mais exigente fisicamente?P.P.: Certos jogadores afirmam que é mais exigente, outros dizem o contrário. Há menos choques no saibro, é às vezes é menos violento para as articulações. Em contrapartida, a musculatura, principalmente das coxas, é mais solicitada. Cada jogador tem sua própria maneira de se movimentar. Roger provou que é de todos os pisos, no jogo e na movimentação.
swissinfo: Tratabalha-se da mesma maneira com um jogador de 20 anos e com outro de 30?P.P.: O tênis é um esporte em que não se é velho aos 30 anos. Pelo contrário, ele favorece a maturidade. Nessa idade, são os detalhes que fazem a diferença. O tênis exige esforços intensivos e variados no plano físico, mas as pausas de 25 segundos e de um minuto e meio permitem uma recuperação parcial.
Não esqueçamos que Roger já tem 950 partidas nas pernas e anos de trabalho duríssimo. Como ele ainda espera jogar vários anos, a dosagem e a repartição das unidades de treinamento são extremamente importantes. Cada treino solicita um fator diferente: rapidez, velocidade, resistência. Calculamos de maneira que Roger tenha períodos de recuperação necessária a cada tipo de treinamento. Já fazíamos isso antes, mas é ainda mais importante hoje.
P.P.:É preciso sempre adaptar o trabalho de força ao tipo de jogador. Roger é um jogador explosivo por natureza. Ele precisa principalmente de manter essa explosividade e treinar a resistência de sua explosividade, uma qualidade física essencial. Roger é um dançarino na quadra. Ele deve manter-se ágil e móvel em torno de seu eixo. Então não se pode exagerar na musculação e tomar cuidado para não espremer demais o limão. Quando mais tempo você fica no circuito, mais a recuperação é importante.
" O tênis é um esporte em que não se está velho aos 30 anos. Ao contrário, ele favorece a maturidade. "Pierre Paganini, preparador físico de Roger Federer.swissinfo.ch: O que o senhor acha da "teoria do declínio", que volta regulamente à mídia?
P.P.: Eu não compreendo como se pode escrever essas coisas. Julguem o desempenho de Roger severamente, mas num contexto objetivo. Nas quadras, ele já enfrentou quatro gerações de jogadores. Sete anos atrás, ele já era número um mundial. Em 2011, aos 30 anos, ele está em terceiro no ranking, mas continua a ter um jogo extraordinário.
Entre 28 e 30 anos, é impossível evoluir no mesmo ritmo do que entre 22 ou 25 anos. Simplesmente, os outros também progridem, é o charme fantástico desse esporte. Eu tenho muito respeito por Djokovic e Nadal, mas ainda mais por Federer porque sua longevidade é incrível. Ele está próximo deles e pode vencê-los.
P.P.: Naquele momento era difícil de reagir porque o vírus estava instalado. Em contrapartida, adaptamos a retomada dos treinamentos. Sua explosividade diminuiu muito. Os resultados que ele obteve naquelas condições foram claramente subestimados. Mesmo daqui a 20 anos, ainda me lembrarei da coragem de Federer em 2008. Honestamente, não sei como ele fez para ganhar um torneio do Grand Slam naquele ano.
swissinfo.ch: Que influência têm as viagens constantes e os fusos horários no organismo dos jogadores?P.P. Fala-se muito pouco desse fenômeno. Os jogadores são submetidos ao “jet lag” durante toda a temporada. É essencial conhecer seu organismo para lutar contra da melhor maneira possível. Roger consegue devido sua higiene de vida exemplar e sua experiência.
Para dar um exemplo, quando Federer vai para os Estados Unidos, suas pulsações podem chegar a dez batidas por minuto a mais do que na Suíça. É necessário considerar esses parâmetros. Roger tem não somente o conhecimento objetivo de seu corpo, mas também muito feeling. Isso é muito precioso para a comunicação e a planificação.
P.P.: Claro que sim e seria estúpido não acreditar. Não quer dizer que será fácil. Ao ver as coisas quase impossíveis que ele já conquistou em sua carreira, só podemos confiar nele. É do caráter de campeão dizer onde vai tentar chegar. Na vida, nove em dez pessoas não vão totalmente ao fundo das coisas e eu me incluo nisso. Roger faz parte das raras pessoas que fazem tudo para atingir um objetivo. É por isso que ele tem o direito de dizer essas coisas.
Samuel Jaberg, swissinfo.ch
Adaptação: Claudinê Gonçalves