O escritor britânico Ian McEwan se sente preso num pesadelo kafkiano que pode fazer com que sua visita aos Estados Unidos para divulgar seu novo romance, "Saturday", seja a última viagem que ele fará ao país.
Os problemas do escritor mostram até que ponto os efeitos dos ataques de 11 de setembro de 2001 permearam todos os níveis da sociedade -- o que é irônico, já que seu livro trata justamente dessas questões.
Suas dificuldades diplomáticas começaram um ano atrás, quando autoridades americanas o impediram de entrar nos EUA. O erro foi das próprias autoridades, mas acabou entrando no sistema informatizado, de onde não mais saiu.
"Quando você tem sua entrada nos EUA negada uma vez, seu nome vai para o computador e você passa a ser visto como suspeito", disse McEwan à Reuters, em entrevista. "É motivo de grande irritação."
"É muito possível que seja a última vez que consigo entrar", prosseguiu o escritor, conhecido pelos livros "Amor para Sempre", "Amsterdam" e "Reparação". "Todas os grandes sistemas burocráticos criam absurdos, mas acho que este está se tornando um pouco kafkiano."
Apesar de ter recebido "um pedido de desculpas abjeto" do Departamento de Segurança Nacional dos EUA no ano passado, desta vez o visto de entrada de McEwan levou nove meses para sair e acabou sendo concedido apenas algumas horas antes de ele viajar.
McEwan, saudado como o maior escritor britânico da atualidade, visitou o Brasil em 2004, quando participou da segunda edição da Festa Literária Internacional de Parati (Flip).
"Saturday" acompanha um dia na vida do neurocirurgião Henry Perowne. A história acontece em fevereiro de 2003, no momento em que 1 milhão de britânicos se mobilizavam contra a guerra do Iraque que estava prestes a começar.
É um dos primeiros trabalhos literários de peso a usar como pano de fundo os ataques de 11 de setembro e o realinhamento político mundial que se seguiu a eles. Mas o trabalho de McEwan trata principalmente de como essas transformações se manifestaram.
"Essa questão afetou todas as partes do cotidiano das pessoas, ao ponto de fazer com que as pessoas precisem tirar os sapatos ao entrar num avião", disse ele. "Onde tudo isso nos está conduzindo, nós não sabemos, e meus personagens refletem esse sentimento de perplexidade."
O livro vem tendo vendas boas desde seu lançamento nos EUA, na semana passada, e as críticas, em sua maioria, são positivas.
O jornal The Oregonian escreveu que "'Saturday' pode ser comparado à obra-prima de Saul Bellow, 'Herzog', e a 'Ulysses', de James Joyce."
McEwan não atribui importância exagerada nem às críticas positivas nem às negativas, como uma publicada no The New York Times. "Os editores gostam de superlativos", comentou, falando das resenhas boas, e observou que não se deixa incomodar por "resenhas estúpidas e comentários idiotas".
E o que dizer do The New York Observer, que, fazendo referência a sua aparência, o descreveu como "um Clint Eastwood literário?"
"Isso eu gostei", respondeu McEwan, sorrindo.