O roteirista e diretor Terry George, que estreou na direção em 1996 com <i>Mães em luta</i>, volta a chamar a atenção com <i>Hotel ruanda</i>, estréia desta sexta-feira. O filme faz um comovente retrato do heroísmo discreto de um cidadão de Ruanda, no meio da guerra civil que dilacerou o país em 1994.
A produção dolorosa e convincente tem tom devastador sem, entretanto, recorrer às manipulações sentimentais que tão frequentemente acompanham filmes sobre "homens que fizeram a diferença".
Mas a maior arma secreta do filme é a atuação magistral do sempre confiável Don Cheadle no papel do altruísta gerente de hotel Paul Rusesabagina.
Cheadle, aparecendo em praticamente todas as cenas, carrega o filme inteiro nas costas, criando o tipo de performance irretocável que é inteiramente merecedora de Oscar.
Entramos em contato com Rusesabagina como gerente de um hotel elegante que não mede esforços para oferecer hospitalidade de primeira categoria a seus hóspedes importantes.
Ele sabe exatamente quais deles vão querer ter algumas garrafas de bom scotch incluídas em suas valises, caso eles precisem de um pequeno "reforço" depois de deixarem o hotel.
Quando a tensão entre as populações tutsi e hutu de seu país explode num banho de sangue, Paul acaba tendo que cobrar os favores que prestou a muitas pessoas muito antes do que imaginara.
<b>NICK NOLTE E JOAQUIN PHOENIX</b>
Em meio ao massacre generalizado, Paul transforma o luxuoso Hotel Mille Collines, pertencente a proprietários belgas, num abrigo não apenas para sua própria mulher e família, mas também para centenas de refugiados tutsis que estavam sendo caçados nas ruas e chacinados.
Três meses mais tarde, o número de mortos chegaria a 1 milhão de pessoas.
Quase tão vergonhosa quanto o próprio massacre é a indiferença generalizada do resto do mundo em relação ao que está acontecendo em seu país.
Com isso, Paul Rusesabagina se vê sozinho, tendo que contar com seus próprios recursos, cada vez menores, para salvar o máximo possível de vidas humanas, enquanto o prometido resgate das Nações Unidas não chega.
Apesar do contexto sociopolítico, o filme também funciona como drama romântico convincente centrado na relação comovente entre Rusesabagina e sua mulher, Tatiana, igualmente bem representada por Sophie Okonedo.
Completam o rol de performances elogiáveis Nick Nolte no papel de funcionário da ONU solidário, mas basicamente sem poder para agir, e Joaquin Phoenix como fotojornalista que se envolve emocionalmente com uma mulher ruandesa.
Lembrando <i>Os gritos do silêncio</i> com seu misto de realismo implacável e drama humano, <i>Hotel Ruanda</i> também evoca o trabalho de Jim Sheridan, com quem Terry George trabalhou em <i>Em nome do pai</i> e <i>O lutador</i>.
Completam as qualidades do filme a fotografia convincente de Robert Fraisse e a trilha sonora evocativa de Andrea Guerra.