A homologação da área indígena Raposa Serra do Sol de forma contínua está dividindo os índios da etnia Macuxi. Dentro da área homologada pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, encontram-se dois municípios - Pacaraima e Uiramutã - onde vivem não apenas índios. Existem várias fazendas na região, algumas instaladas há várias décadas, nas quais planta-se arroz e trabalham muitos índios.
Os macuxi de Roraima são também agricultores e pecuaristas. A Raposa Serra do Sol está situada em área de cerrado. Ao contrário de outras reservas, que, dentro de mata fechada, possibilitam a sobrevivência do índio de maneira extrativista, eles precisam de projetos de agricultura e pecuária para promover o sustento de sua população.
O assunto foi discutido hoje no programa Amazônia Brasileira, da Rádio Nacional da Amazônia, que ouviu dois líderes indígenas que, embora sejam parentes, têm posições diferentes. O cacique Silvestre Leocádio da Silva, presidente da Sociedade de Defesa dos Índios do Estado de Roraima (Sodiur), defendeu a demarcação das terras de forma não-contínua, permitindo a permanência dos municípios e dos fazendeiros que já estão lá.
O cacique Jaci de Souza, líder do Conselho Indígena de Roraima (CIR), entretanto, prefere a demarcação contínua e a retirada da reserva daqueles que não são índios.
Leocádio denunciou a presença de estrangeiros na reserva, insuflando os índios para exigir a homologação de forma contínua e disse que não vai aceitar essa situação. Segundo o cacique, eles tiraram todos os brasileiros da área. Leocádio lembrou que pessoas que ali moraram 100 anos foram expulsas.
- E os estrangeiros continuam dentro da área, insuflando os indígenas". De acordo com Leocádio, chegou-se a um momento muito triste: já brigou garimpeiro com índio, fazendeiro com índio e agora é índio com índio - disse.
O cacique manifestou preocupação com o sustento da população da reserva, já que, segundo ele, o governo federal não apresentou nenhum projeto para o desenvolvimento da agricultura e da pecuária. Ele criticou a Funai, dizendo que ainda não viu qualquer programação que dê ao índio acesso a novas tecnologias, nem projetos para que evolua, se desenvolva e se inclua na economia do estado e do país.
- Eles querem tratar o índio como bicho: demarcar e deixar lá o índio privado - afirmou o cacique, de 53 anos.
Embora comente-se em Roraima que há desentendimentos de cunho religioso na questão, o cacique Leocádio nega, dizendo não existe ligação formal entre o Sodiur e grupos políticos ou religiosos. Ele já fez parte do CIR, do qual discorda: "Eu saí porque não era o que o índio queria. Era o que a igreja católica queria".
Leocádio é líder do grupo que seqüestrou três padres e sete estudantes, segundo ele, para chamar a atenção do país. O cacique informou que viajará a Brasília para se encontrar com o ministro Márcio Thomas Bastos e o presidente Lula. Ele informou que vai pedir um levantamento do número de índios na região e concluiu: "Quem deve mandar no Brasil são os brasileiros e quem deve mandar na área indígena são os índios!"
O líder do CIR, Jaci de Souza, por sua vez, disse à Rádio Amazônia que os índios da Raposa Serra do Sol (16 mil, segundo ele) precisam de toda a extensão da reserva porque não têm mais terra na fronteira com a Venezuela, nem com a Guiana. Jaci está agora chamando os parentes (os macuxi) para conversar:
- Queremos que eles entendam a importância da terra pela qual lutamos. Agora, não-índio, como os fazendeiros, nós não concordamos com eles porque estão destruindo a nossa terra - afirmou.
Sobre as cidades que estão dentro da reserva - uma delas, Uiramutã, tem inclusive um índio como vice-prefeito - Jaci afirmou que não é verdade: "Tem currutela. Não é cidade". De acordo com Jaci, o número de habitantes da reserva que não são índios seria inferior a 600.
Quanto a possíveis problemas com o suste