Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026

Homenagem aos 300 anos de Vila Rica - Ouro Preto

Quinta, 07 de Julho de 2011 às 10:47, por: CdB

Alceude Amoroso Lima dizia que não se pode falar de Ouro Preto sem usar superlativos.Mas a gente pode tentar...

Asprimeiras pepitas de ouro começaram a despontar entre os seixos das bateias noinício da década de 1690. O núcleo que deu origem à cidade foi fundado em 24 dejunho de 1698. A elevação à categoria de vila ocorreu, por carta régia de DomJoão V, em 8 de julho de 1711. Comemoramos nesta data, portanto, o 3ºcentenário da "Vila” que, em 1712, foi reconhecida e chamada de "Rica”.

Édo famoso mineralogista francês Claude-Henri Gorceix, fundador da Escola deMinas, a célebre frase: "Minas é um peito de ferro onde pulsa um coração deouro”. O ouro foi sendo desentranhado "e se tornando pó, folha, barra,prestígio, poder, engenho”, como escreveu Cecília Meireles. E foi o ouro desteterritório em que a natureza se excedeu em dádivas, se bem que na condição decolônia, que oxigenou por décadas o pulmão da voraz metrópole.

Oespírito das Minas Gerais, das quais praticamente pouco se sabia até o fim daprimeira metade do século XVI, começou a tomar corpo em Vila Rica (de NossaSenhora do Pilar de Ouro Preto). Como todos os espíritos, também ele padeceutormentos e contradições, às vezes de difícil superação, mas também deindizíveis alegrias. Se, de um lado, os que visitam a cidade se alegram com aarquitetura, a música, a literatura e a gastronomia excelsas, de outro ladotambém é verdade que o patrimônio da humanidade sofre com a precariedade e todasorte de riscos. Neste tempo de comemorações, o melhor modo de celebrar OuroPreto seria comprometer-se efetivamente com a sua preservação.

Misturade história com lendas, religião e misticismo, fazendo do barroco uma miragem,graças à sua espetacular monumentalidade, cada destaque da acidentadatopografia é aproveitado da melhor maneira, na tentativa – sempre bem sucedida– de rivalizar com as colinas. O sítio abriga a beleza da natureza com ainventividade do ser humano. Vila Rica é a matriz de onde os sonhos barrocosdeslizam pelas pedras, textos, sons, odores, sabores e amores.

Augeda magnificência, da dramaticidade, a vila produziu o maior préstito de encomiásticareligiosa do século XVIII, o TriunfoEucarístico, símbolo da riqueza do setecentos, com as faíscas dos maiores emelhores diamantes das Américas servindo para diluir os conflitos dadesigualdade. Ninguém poderia duvidar do êxito do empreendimento aurífero e aescravidão ficaria, por mais de século, totalmente esbatida.

Aindahoje serpenteiam as procissões naquele sacro, mas não menos sensual torrão, oracedendo o espaço ao sopitado e pungente pranto da Paixão, ora recuperando osjúbilos da Ressurreição.

Cadaobra-prima dos aleijadinhos (em Minas tudo é plural) representa –é quando aestética galga as cimeiras– "a clara vitória da forma e da humana geometria”,como ensinou o extasiado Murilo Mendes. Corpos macerados e suados, membrossangrentos e até leprosos deram forma –na talha, no lenho, nas tintas– aotrabalhador da terra, aos santos, às hierarquias celestes – dos anjos aosquerubins – às Virgens, ao Filho de Deus, tanto em glória quanto em escárnio.

Emnenhum outro lugar do Brasil a manutenção das raízes tanto combina, e tãoharmoniosamente, com a compulsão pelas ideias novas; nem sabemos se os séculosconhecerão outra amálgama do novo com o antigo, da tradição com a vanguarda.Tão antiga, tão conservadora, tão apegada às origens, e no entanto a maisaberta para o que de melhor e mais necessário requeria o Brasil. De fato, aliberdade foi uma ideia que nasceu em Minas.

Aliforam lançadas as imorredouras sementes do anti-conformismo, da conjura contraa opressão, da inconfidência contra a tirania, do brado contra a derrama, dotalento artístico e político contra a natureza granítica e a empedernidaescravidão.

Delá ecoou, enfim, pelas montanhas de Minas e do Brasil, o capitoso grito de lucidezdo alferes Tiradentes e seus companheiros, que fizeram crescer no coração dosbrasileiros a chama da libertação.

NaVila Rica, há duzentos anos, o curso da banalidade histórica foi revertido, foilá que os nossos mártires exorcizaram o fetiche do destino, contrariando asanha dos algozes, exatamente quando a todos ela parecia tão insaciável quantoirreversível.

VilaRica foi e continuará sendo o símbolo do parto da civilização dos trópicos,içada – mesmo com dor, traição, banimento, esquartejamento – aos píncaros daluminosa experiência da solidariedade e da paz. Se o passado testemunhou épocasde ambições causadas pela imaturidade política, ou entreveros oriundos da faltade diálogo, chegando a indispor regiões e povos tão entranhadamente brasileiroscomo São Paulo e Minas, não sejamos mais assombrados pelos emboabas; e já quedesde há muito somos todos constituintes, o correto é olhar vigilantes para afrente e somar forças na construção de um Brasil de prosperidade para todos.

Aindahoje, através de seus estudantes, artistas, intelectuais, vive em VilaRica-Ouro Preto uma gente consciente que conserva o viço de ser guardiães dodinamismo da memória de uma nação livre.

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