Um dos maiores historiadores ainda vivo, o inglês de origem egípcia Eric Hobsbawm, aproveitou sua estada na pequena cidade histórica de Parati para ecoar sua visão crítica contra a supremacia militar do presidente norte-americano, George W. Bush, e seus ideólogos, a quem chamou de "homens loucos" e "fundamentalistas do Texas".
Morando em Nova York e lecionando na New School for Social Research, Hobsbawn é hoje, juntamente com Gore Vidal e Noam Chomsky, uma das vozes da intelectualidade que tem-se pronunciado contra o atual projeto político-ideológico implementado nos Estados Unidos pelo que ele chama de um grupo de "radicais de ultra-direita".
— Não há formas de conter os homens loucos de Washington. Eles acham que têm muitas armas. Mas eles não representam nem a opinião pública (norte-americana) e nem mesmo o Partido Republicano. Eles estão nessa posição porque o ataque do 11 de setembro permitiu ao grupo de Bush ter grande influência — disse o historiador marxista de 86 anos numa entrevista à imprensa na sexta-feira.
Hobsbawn acredita que, em termos militares, hoje não há uma forma de que a superioridade militar dos EUA possa ser contrabalançada, mas lembrou que a história prova que nenhum império dura para sempre.
— Não há nenhum outro Estado que possa confrontar ou amedrontar os EUA numa escala mais ampla senão a China. Mas a China não está no mesmo negócio dos Estados Unidos. A China não está no negócio da supremacia do mundo, de um grande império. Talvez em 20 ou 30 anos — disse.
Tendo vivenciado pessoalmente os principais eventos do século 20, como a ascensão e queda dos regimes comunistas e a Segunda Guerra Mundial, o historiador de Tempos Interessantes e A Era dos Extremos se recusa a fazer previsões para o futuro, mas arrisca dizer que pelo momento os problemas do século 21 podem ser vistos a partir dos do século passado.
— As guerras do século 20 foram guerras de ideologia, de religião. Eu espero que a gente se afaste disso, mas o que vemos é que a janela da oportunidade em que se podia ver o mundo além da guerra entre o bem e o mal passou. Estamos de novo numa era de guerras de religião — afirmou.
Na palestra que concedeu durante a noite, o historiador reforçou que Karl Marx ainda é sua grande inspiração - ele é até hoje filiado ao Partido Comunista inglês - e acrescentou que para compreender o mundo precisou também da ajuda de um outro Marx, do humorista Groucho Marx.
— É preciso um pouco de humor negro para apreciar o absurdo, o surrealismo, a excentricidade do mundo. O mundo é muito sério para ser levado sem risadas.