O grupo xiita Hizbollah disse na quarta-feira que não pretende depor suas armas, apesar da pressão norte-americana. No mesmo dia, agentes sírios de inteligência deixaram Beirute e outras áreas do Líbano.
O Hizbollah é apoiado pela Síria e pelo Irã e foi um dos responsáveis por obrigar Israel a bater em retirada do sul Líbano, em 2000, após 22 anos de ocupação. Trata-se da última milícia ainda armada do país, apesar de ser também um partido político. A decisão de não entregar as armas foi anunciada pelo líder do grupo, xeique Hassan Nasrallah.
"Estou me atendo às armas da resistência porque acho que essa é a melhor fórmula para proteger o Líbano e conter qualquer agressão israelense", disse Nasrallah em entrevista ao vivo à TV Al Manar, mantida pelo Hizbollah. Ele deixou claro que as armas só serão usadas contra Israel, e não internamente no Líbano, país destroçado por uma guerra civil entre 1975 e 90.
Nasrallah também disse que entre 20 e 30 funcionários sírios foram mortos desde 14 de fevereiro, quando o atentado que tirou a vida do ex-primeiro-ministro Rafik Al Hariri desencadeou protestos contra a presença militar da Síria no Líbano. O governo de Damasco negou participação no assassinato de Hariri. "Isso é uma desgraça", disse Nasrallah sobre a morte dos funcionários sírios.
Desde o atentado contra Hariri, dezenas de milhares de trabalhadores sírios deixaram o Líbano.
Na semana passada, o Hizbollah levou centenas de milhares de pessoas a manifestações pró-sírias em Beirute, mostrando sua força política. O grupo tem representação no Parlamento libanês e comanda várias entidades beneficentes.
Testemunhas disseram que os agentes sírios de inteligência deixaram seus escritórios à beira-mar em Beirute. Uma pequena escavadeira demoliu dois postos de vigilância, enquanto caminhões retiravam material e partiam.
A primeira fase da desocupação síria do Líbano, anunciada há 11 dias, está praticamente completa. Mais de 4.000 soldados voltaram para seu país na semana passada, e outros 2.000 foram deslocados para o leste do vale do Bekaa, segundo fontes libanesas.
Durante a madrugada, quase todos os agentes de inteligência que trabalhavam no norte do Líbano e nas montanhas a leste da capital também saíram, segundo essas fontes. Entre 150 e 200 agentes teriam regressado para a Síria ou se deslocado para o leste do Líbano.
Mas, em Washington, o porta-voz do Departamento de Defesa, Adam Ereli, duvidou disso. Questionado sobre a movimentação dos agentes, ele disse: "Para onde?" Segundo Ereli, "é meio difícil saber" se todos os agentes de inteligência sírios já voltaram para seu país.
O aparato sírio de inteligência, muito temido pelos libaneses, sempre foi um elemento importante para a manutenção da influência política e militar de Damasco no país vizinho. A ocupação foi iniciada durante a guerra civil, em 1976.
O primeiro-ministro libanês, Omar Karami, que é simpático à Síria e tenta formar um governo de união nacional, pediu a todas as forças políticas do Líbano que parem de realizar manifestações a favor e contra a Síria.
"Acreditamos que o diálogo nacional estipula evitar qualquer ato de divisão e, portanto, suspender as campanhas de protesto que tomaram conta do país nas últimas semanas", afirmou ele em nota oficial.
Até agora, Karami não conseguiu convencer a oposição a participar do novo governo. Seus adversários exigem a demissão de chefes de segurança ligados à Síria e uma investigação internacional sobre a morte de Hariri.
Se a crise política persistir, as eleições parlamentares marcadas para maio podem ser adiadas, porque o governo deve pedir a aprovação de uma lei eleitoral ao menos um mês antes do pleito.