O segundo turno das eleições presidenciais no Chile gerou polêmica e dúvida entre os partidos e movimentos de esquerda. Apoiar ou não a eleição de Michelle Bachelet? O Partido Comunista decidiu apoiar desde que a candidata se comprometesse a cumprir cinco pontos de uma amena agenda de negociação. O Partido Humanista, de Tomás Hirsch, que disputou o primeiro turno do pleito, mais do que negar apoio, convocou a população ao voto nulo. No domingo, dia 15, quando os chilenos foram às urnas e deram a vitória à candidata Michelle (54% ante os 46% de seu adversário Sebastián Piñera), Hirsch concedeu essa entrevista ao jornal Brasil de Fato e explicou por que negou seu apoio à presidente eleita: "Não estamos dispostos a apoiar o neoliberalismo".
- Por que o seu Partido convocou a população chilena a votar nulo nas eleições presidenciais?
- A coalizão Junto Podemos (que reuniu os Verdes e o Partico Comunista) e nós, do Partido Humanista, fizemos um trabalho e um chamado ao voto nulo, branco ou abstenção porque não estávamos e não estamos dispostos e não acreditamos que seja bom apoiar a continuidade e o aprofundamento do modelo neoliberal que a Concertação vem aplicando no país há mais de 15 anos. Tivemos um respaldo considerável de votos brancos e nulos. Fizemos esse chamado, pela esquerda, porque o modelo neoliberal tem sido aplicado com tal dureza e rigor no nosso país que as transnacionais tiveram resultados que nunca puderam imaginar na sua história.
- Então, para o senhor, o governo eleito terá o papel de administrar o neoliberalismo?
- Isso é o mais claro. A continuidade da Concertação significa mais do mesmo. Significa que as mesmas politicas de privatizações, de Tratados de Livre Comércio (TLC), de aliança com o poder dos Estados Unidos e de dar ao poder financeiro atribuições ilimitadas continuará sendo aplicada. Lagos (Ricardo Lagos, atual presidente) realizou uma excelente campanha publicitária para o exterior se fazendo como representante de um governo progressista, mas na realidade as políticas utilizadas no país são para favorecer os interesses do grande capital internacional.
- Quais têm sido as conseqüências da aplicação do TLC firmado com os Estados Unidos?
- O TLC significou concentração de renda e acentuou as dificuldades para distribuição dos ingressos. Isso tem afetado principalmente os pequenos agricultores, pequenos industriais e comerciantes nacionais porque o acordo os deixa completamente desprotegidos frente às grandes corporações transnacionais. O tratado permite que o capital internacional entre e saia livremente. Tem a possibilidade de investir no país a custos baixíssimos, com isenção tributária e uma série de facilidades. Além do que, não tem que cumprir a legislação que, sim, é aplicada aos produtores nacionais.
- Alguns movimentos sociais chilenos consideravam que com Michelle Bachelet seria aberta uma lacuna para uma nova ascensão dos movimentos de massas. O senhor concorda ?
- Não podemos nos confundir. Faz muito tempo que a Concertação deixou de ser um projeto social para se converter em uma sociedade anônima, com vagas para acionistas, cargos de diretórios que se repartem os dividendos. A Concertação não tem absolutamente nada de processo social, de transformação da sociedade, de revolução. Parece-me bastante grave seguir postergando as necessidades dos que têm sido maltratados durante todos esses anos. A Concertação tem sido uma grande administradora do modelo neoliberal. A direita econômica nunca esteve tão contente como nos últimos anos do governo Lagos. Nunca tiveram tantos benefícios e um campo tão aberto para fazer o que desejavam.
- Diante desse cenário, qual a tarefa que se impõe aos movimentos sociais e aos partidos de esquerda?
- Hoje estamos reafirmando o compromisso do Juntos Podemos. Esse foi o maior acordo que a esquerda chilena tem visto nos últimos 3