Em atentados como este na Espanha, é inevitável a pergunta a respeito de a quem favorece, para tentar entender quem pode ter sido o responsável por um gesto tão brutal.
A primeira possibilidade, sobre a qual recaiu imediatamente a suspeita do governo espanhol, é a do ETA. Seja porque foi o protagonista dos grandes atos terroristas das últimas décadas no país, seja porque sua política de boicote eleitoral poderia coincidir com o momento em que foi realizado. Além disso, o ETA intensificou suas ações contra o governo do PP, ao mesmo tempo que aumentava seu isolamento no plano nacional. No entanto, surpreende a capacidade de ação dos responsáveis pelos atentados, considerando que o ETA foi bastante golpeado pela repressão nos últimos anos. Ao mesmo tempo, Harri Batasuna, frente política do ETA, desmentiu que a ação tivesse sido realizada por essa organização separatista.
A segunda possibilidade reside na versão de que seriam grupos islâmicos, eventualmente a Al Qaeda. A capacidade operativa poderia denunciar esta presença, assim como o apoio incondicional que o governo de José Maria Aznar deu ao governo norte-americano na guerra e na ocupação do Iraque. No entanto, apesar das ameaças, nenhuma ação desse tipo havia sido realizada na Europa, menos ainda na Grã-Bretanha, mais constantemente mencionada com possível alvo.
Nesses casos sempre vale a pena perguntar se não poderia se tratar de uma ação de algum serviço de segurança de alguma potência, interessada nos efeitos que esse tipo de atentado pode ter. Seria de se descartar o próprio governo espanhol, dado que, apesar de que essas ações podem favorecê-lo eleitoralmente, tudo indica que sua vitória se daria independentemente delas.
O jornalista Robert Fisk, o melhor correspondente no Oriente Médio, especulou na semana passada sobre a possibilidade de algumas das últimas ações mais violentas no Iraque serem de responsabilidade dos serviços norte-americanos, que assim tratariam de capitalizar seus efeitos, tanto no Iraque quanto nas eleições norte-americanas, ao reiterar a atualidade dos riscos do terror no mundo. O mesmo raciocínio poderia orientar uma especulação desse tipo, para completar o quadro.
De qualquer forma, devem favorecer ainda mais o triunfo do PP nas eleições de domingo próximo, renovando a presença da direita no governo espanhol. Resta saber quanto afetarão o clima, na Espanha e no resto da Europa e do mundo, para as manifestações do próximo dia 20, data do término oficial da guerra no Iraque, convocadas pelos militantes pelo outro mundo possível.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História"