Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026

Hepatite pode dizimar população indígena no Amazonas

Por Fernanda Sucupira - Segundo estimativa do Conselho Indígena do Vale do Javari, a população da segunda maior reserva indígena brasileira pode desaparecer em 20 anos se a omissão da Funasa persistir na região. Nesta quarta, índios ocuparam a sede do órgão. (Leia Mais)

Quinta, 01 de Julho de 2004 às 08:53, por: CdB

A saúde da população da segunda maior reserva indígena brasileira corre perigo. A epidemia de hepatite B e D ameaça os 3.500 índios do Vale do Javari, localizado no sudoeste do Amazonas. Se a situação persistir, a população que habita a região será dizimada em vinte anos, segundo estimativa do Conselho Indígena do Vale do Javari (Civaja). Por causa dessa situação, nesta quarta-feira (30), índios da região ocuparam a sede da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão do Ministério da Saúde responsável pela saúde indígena desde 1999, em Atalaia do Norte (AM). Eles reivindicam a presença do presidente da Funasa e da Coordenadora de Atenção à Saúde Indígena.

Segundo o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), a manifestação é conseqüência do pouco caso e da inoperância com que vem sendo tratada a questão da saúde indígena no Vale do Javari.

Há pelo menos treze anos os casos de hepatite na região vêm causando várias mortes de crianças e adultos indígenas, mas o quadro se agravou ainda mais desde 2001. A Funasa é acusada de negligência no dossiê. "Quantos índios mais terão que morrer para as autoridades se interessarem pelo caso?", questiona o ecólogo Hilton Nascimento, autor do documento.

- Até agora nada foi feito e a Funasa não tem controle do que está acontecendo. Já faz mais de três anos que começou essa epidemia recente e as ações ainda não saíram do papel - denuncia.

Uma equipe da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas fez a sorologia de 64 habitantes da aldeia e detectou alta prevalência de hepatite B. A equipe recomendou que fosse realizada vacinação maciça da população do Vale do Javari e acompanhamento dos pacientes sabidamente infectados, pois havia grande chance de desenvolverem hepatite crônica. De acordo com o dossiê, desde 2001 as campanhas de vacinação têm sido irregulares, com falta de padronização e grandes intervalos entre as doses. Os prazos estipulados para algumas medidas já venceram e pouca coisa foi feita.

Dor, medo e tristeza

A hepatite D, muito comum na região amazônica, costuma ser incurável e é muitas vezes fulminante. Ela se desenvolve a partir da hepatite B, variação da doença com que o paciente pode conviver bem por muito tempo. Ambas são transmitidas por meio de relações sexuais, transfusão sangüínea e podem ser passadas da mãe para o filho no momento do parto. Síndrome Febril Íctero Hemorrágica Aguda (SFIHA) é o nome genérico dado a casos que apresentam sintomas como febre, icterícia (coloração amarela da pele) e vômito de sangue, quando não é possível identificar qual é a doença específica.

- Dos 17 óbitos no ano passado, apenas quatro foram confirmados como de hepatite B, por meio de sorologia ou biópsia. Os outros treze também podem ser malária, febre amarela ou leptospirose - diz Iraneide.

No entanto, de acordo com Hilton Nascimento, dizer que não se pode afirmar que as mortes foram causadas por hepatite é uma fuga.

- Realmente só se pode confirmar com a biópsia, mas diante do histórico da região, em casos com esses sintomas, não há dúvidas. Pode-se concluir que é hepatite mesmo - diz.

Segundo o dossiê, além da situação dramática representada pelo elevado número de mortes, as conseqüências para a geopolítica da região são enormes. As famílias estão se separando e se deslocando para outras áreas, algumas aldeias estão sobrecarregadas, criando situações de insegurança alimentar, comunidades estão sendo abandonadas e o êxodo para a cidade aumentou. Além disso, a tensão interna entre os povos indígenas do Vale do Javari aumentou devido a acusações de feitiçaria como causa dos óbitos.

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