"Pelas8 horas chegaram novamente os pistoleiros atirando sobre o nosso acampamento.Eu corri para avisar vocês e as autoridades, para evitar o massacre do nossopessoal”, falou uma liderança de Mbaraka’i e Pyelito Kue, denunciando mais umcovarde ataque contra sua comunidade. É o quarto ataque em um mês.
Fomosvisitar um acampamento próximo à Terra Indígena de Dourados. O que já foiconsiderado por uma procuradora do Ministério Público Federal, como a piorsituação indígena em termos mundiais hoje, vai se transformando num espaço deluta por direitos. Mesmo que sejam pequenos pedaços de terra, mas eles vãosendo reconquistados. "Já faz 13 anos que estamos lutando por essa terra”afirma a liderança. O grupo Guarani dos "índios sem terra”.
No dia 11 desetembro de 2009, a comunidade Kaiowá Guarani de Laranjeira Nhanderu, foiexpulsa de seu tekohá, para a beira da BR 163. Depois de mais de um ano e meiona beira da rodovia, tendo três de seus membros sido mortos por atropelamento,e não mais aguentaram, retornaram ao seu tekohá em maio deste ano. Agora pesasobre eles nova expulsão, estando em curso um pedido de reintegração de posse,previsto para o dia 21 deste mês. Será que mais uma vez os direitos dessacomunidade serão violados e eles expulsos de sua terra tradicional. Até quandocontinuaremos tendo esse tipo de 11 ou 21 de setembro?
Aolembraram o 11 de setembro, como um dia de luta pelos seus direitos, aslideranças de se perguntam porque continuam submetidos a essa situação desofrimento, insegurança e mortes! Na iminência de sofrerem novo despejo, eleslançam ao mundo esse novo clamor para que o governo brasileiro e a justiça nãopermitam que se perpetre mais essa violência genocida contra uma comunidadeKaiowá Guarani.
Quandoa CIA afirmou em documentos, que talvez seu maior inimigo, no século 21, seriamos povos indígenas, apenas estava reconhecendo que o sistema de vida dessespovos, dando primazia ao coletivo sobre o individual e à propriedade privada,estava atingindo o coração do sistema capitalista e da lógica da dominação doimpério.
Premioà sabedoria, espiritualidade e compromisso
Oscabelos brancos de um quase octogenário guerreiro das causas indígenas,especialmente da causa Guarani, mereceram destaque nesses dias. Nosso querido eaguerrido Meliá recebeu o merecido premio "Bartolomeu de Las Casas”. Recordo asinúmeras reuniões e encontros que tivemos para construir coletivamente ocaderno e mapa "Guarani Retã”. A sabedoria de Meliá era fundamental para que oprocesso avançasse, juntamente com a obstinação de consolidar essa ferramenta,por parte de Grunberg. Lembro dos momentos sublimes de partilha da sabedoria eespiritualidade alimentada na fonte Guarani, com que Meliá, nos brindou em suasfalas e reflexões sobre a Terra Sem Males. Crítico e profundo conhecedor, elelevou os participantes a um mergulho profundo na vida e espiritualidade dessepovo, com os quais partilhou grande parte de sua vida.
Aoreceber o premio, tenho a certeza que o terá recebido de maneira especial emnome dos Guarani, reassumindo o compromisso que tem com esse povo, que luta eperambula nesse continente sul americano, tendo suas terras e direitos negados.
Quese multipliquem os Bartolomeus nesse continente! Que ressurjam Bartolomeus, naluta pela vida, pela descolonização, pela liberdade, pela diversidade, pelapluralidade de povos e culturas no planeta Terra!
Incansável,Meliá se faz presente, na academia, na aldeia, nos grandes fóruns e encontros,continente afora. Levou importante contribuição nas reflexões sobre, "terra,território e autonomia”, no III Encontro Continental Guarani (foto).
Que o12 de setembro seja um mundo sem impérios e guerras, um mundo de paz e justiça,um mundo digno para todos os povos da terra.
Que amemória de Allende (38 anos do assassinato), salve e alente o heroico povochileno, dos Mapuche e tantos outros, em luta pela justiça, pela dignidade edireito de todos os povos, pelo socialismo!
PovoGuarani Grande Povo
CimiDourados, 12 de setembro de 2011.