O Hamas, grupo islâmico que controla o governo palestino, disse nesta quinta-feira que nunca poderia imaginar a pressão internacional que sofreria depois de vencer democraticamente as eleições deste ano. Em um artigo publicado na imprensa palestina, Ahmed Youssef, assessor do primeiro-ministro Ismail Haniyeh, também líder do Hamas, disse que o grupo ficou chocado com a força da oposição ao seu sucesso eleitoral.
"Foi além de toda imaginação. O governo não espera que as pressões e o cerco impostos sobre nosso povo seriam tão duros, tão fortes, em escala tão grande", escreveu Youssef.
Vários dirigentes do Hamas vêm publicando artigos nas últimas semanas para tentar explicar as razões do grupo ou pedir à comunidade palestina que evite a violência e pense mais cuidadosamente em como se opõe a Israel. Em janeiro, o Hamas derrotou a antes hegemônica facção Fatah, laica e mais moderada, que é liderada pelo presidente palestino, Mahmoud Abbas. Depois da posse do governo do Hamas, Estados Unidos e União Européia impuseram sanções à Autoridade Palestina, bloqueando a ajuda direta e outras formas de apoio, vitais para a administração da Faixa de Gaza e da Cisjordânia.
O governo israelense também suspendeu a transferência de cerca de 60 milhões de dólares por mês, relativos a impostos e recibos alfandegários arrecadados por Israel em nome da Autoridade Palestina. As sanções impedem o governo palestino de pagar os salários à maioria dos seus 165 mil funcionários. Essas medidas, que o Hamas qualifica como um cerco, foram impostas devido à relutância do grupo em reconhecer a existência de Israel e aceitar acordos de paz anteriores. Israel, EUA e UE consideram o Hamas um grupo terrorista.
O Hamas se sente injustiçado com as restrições, alegando ter vencido eleições livres e limpas. Depois de boicotar o pleito de 1996, o grupo islâmico aceitou disputar a eleição deste ano, dizendo-se incentivado pelas propostas norte-americanas de mais democracia no Oriente Médio.
- Pensávamos que haveria uma chance por meio da política de lidar com a corrupção disseminada e o caos da segurança, e reformar as nossas condições econômicas e sociais. Fizemos apostas e tínhamos esperanças de que o Ocidente e especialmente a União Européia nos dariam uma chance de apresentar nossa causa por meio da política, e acreditávamos que o mundo árabe seria nosso apoiador - disse Youssef.
No atual governo, as tensões entre o Hamas e a Fatah se agravaram, resultando numa grave onda de violência. Ao mesmo tempo, porém, há esforços em andamento para a formação de um governo de união nacional, que poderia levar ao fim dos confrontos e das sanções. Youssef disse torcer para uma solução rápida nas negociações entre Haniyeh e Abbas para o novo governo, um processo que já dura semanas, até agora sem resultados.
- Prometemos a nossos irmãos da Fatah e de outras facções da luta nacional que vamos trabalhar de mãos dadas para provar ao mundo que podemos superar a crise e o cerco - disse.