O Haiti foi o primeiro país latino-americano a conseguir a independência. Conseguiu-a pela luta dos escravos negros contra os colonizadores espanhóis e franceses, adotando os princípios da revolução francesa e derrotando o exército de Napoleão. Seu principal dirigente, Toussaint Louverture, foi preso e executado em prisão francesa, ainda antes da vitória, sem impedir a independência dos que foram chamados de "jacobinos negros" - na leitura indispensável de C. James, Os Jacobinos Negros, Ed. Boitempo. A vitória veio em janeiro de 1804, exatamente há dois séculos.
A união dos colonizadores franceses com os espanhóis e os ingleses levou à derrota da maior revolução negra da história da humanidade, com o massacre de milhares de haitianos. Os que puderam escapar fugiram para a região oriental de Cuba, onde passaram a constituir uma colônia de refugiados, que aos poucos foi se integrando à maior das ilhas da região antilhana.
O peso da colonização, mais o massacre e a derrota do movimento de independência, assim como posteriormente a dinastia dos Duvalier - Papa Doc e Baby Doc - , levada ao poder e mantida pelos EUA e pela França, representam o pano de fundo de um país que não está em um processo revolucionário, mas em processo de decomposição.
O fracasso do governo de Jean-Bertrand Aristide fez que o movimento que derrubou os Duvalier e o levou ao poder passasse a se opor a ele, o que fez com que ele fundasse um outro movimento - do nome original, Lavalas, que quer dizer avalanche, passou a se chamar família Lavalas - e projetou o país numa situação de enfrentamento aberto entre o governo de Aristide, agora mantido pelo poder das armas, e uma oposição democrática. Enquanto isso, os haitianos que conseguem sair e não morrem na travessia fogem para os EUA - mais de um milhão vivem nesse país.
O que devasta o Haiti atualmente é a ação de um dos grupos armados que apoiavam Aristide, rebelando-se contra ele e disseminando a violência, diante de um governo sem apoio popular.
A mortalidade materna no país é de mil para cada cem mil nascimentos. A mortalidade infantil é de 94 para cada mil. A mortalidade de menores de 5 anos é de 134 para cada mil nascidos vivos. O analfabetismo é de 47%. O PIB per cápita é de 310 dólares. O crescimento da economia tem sido de 0%. A dependência de importação de alimentos é de 77% do consumo da população. A população é de 8 milhões, a população rural soma 2/3 do total. A expectativa de vida ao nascer é de 54 anos. Existem 8,4 telefones para mil habitantes.
O Haiti morre de miséria, de exploração, de marginalização pelas leis de mercado que o condenam à decomposição.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História