Rio de Janeiro, 05 de Outubro de 2026

"Há uma pujante relação consolidada entre Brasil e Argentina"

Terça, 26 de Julho de 2011 às 03:17, por: CdB

"Há uma pujante relação consolidada entre Brasil e Argentina"Em entrevista ao jornal Página/12, o embaixador da Argentina no Brasil, Juan Pablo Lohlé, fala sobre o atual estágio da relação entre os dois países e sobre o significado da inauguração da embaixada argentina, na próxima sexta, em Brasília, que reunirá as presidentas Dilma Rousseff e Cristina Fernández. Na entrevista, o embaixador também avalia a evolução das relações bilaterais entre os dois países ao longo de oito anos de kirchnerismo e como o acordo estratégico vem ajudando a superar divergências conjunturais.

Darío Pignotti - Página/12

Cristina Fernández e Dilma Rousseff terão sua primeira reunião oficial em Brasília na próxima sexta-feira, quando será inaugurada a embaixada argentina, “símbolo da pujante relação consolidada nestes oito anos”, disse o embaixador Juan Pablo Lohlé, abarcando com isso os governos de Néstor Kirchner e Luiz Inácio Lula da Silva.

Como cabe a um diplomata de carreira, Lohlé – que está cumprindo oito anos frente à embaixada argentina no Brasil – se estende, durante a entrevista, a falar das “convergências estratégicas entre as presidentas”, e da comemoração dos 20 anos do acordo de cooperação nuclear que enterrou as intrigas alimentadas pelas ditaduras. Ainda que evite se aprofundar acerca das divergências bilaterias, exibe uma sóbria inquietude sobre a construção de um submarino nuclear e quatro convencionais, anunciada há uma semana por Dilma Rousseff, reconhece alguns “ruídos” comerciais, atiçados pelos capitães da indústria paulista e é cauteloso ao falar da relação entre Brasília e Teerã.

O que mudou com a chegada de Dilma Rousseff?

As presidentas já se viram em janeiro na Argentina e, desde então, a relação do ponto de vista estratégico segue exatamente igual, as prioridades argentinas são as mesmas, e há um avanço porque pudemos enquadrar nossas controvérsias, o que nos permite alongar o horizonte para mais além do nível comercial.

Refere-se aos atritos de junto por conta dos obstáculos às exportações e das reclamações recentes sobre a triangulação de produtos chineses via Argentina?

A Fiesp (Federação de Indústrias do Estado de São Paulo) é uma instituição que representa os interesses de sua classe, e a UIA (União da Indústria da Argentina) respondeu a Fiesp dizendo que a situação não é tão grave e que há exageros. A imprensa também desempenhou seu papel nesta questão. Mas, naturalmente, quem tem a condução política são as presidentas Cristina e Dilma. Elas tem que olhar para o conjunto, entendo que elas estão cumprindo seu papel de garantir equilíbrio para conduzir a situação.

Qual é o elemento central na relação entre Brasil e Argentina?

Eu recordo que completamos, e comemoramos a data, 20 anos do acordo de cooperação nuclear no marco da Abbac (Agência Brasileiro-Argentina de Controle e Contabilidade de Materiais Nucleares). Isso nasceu em 1985, nos acordos firmados por Alfonsin e Sarney. Nossos homens de Estado viram que era necessário caminhar para a dissuasão nuclear, isso foi levado adiante e segue até hoje, estamos seguindo esse caminho.

Precisamos colocar em órbita um satélite oceânico meteorológico conjunto.
Estamos projetando a criação de um avião cargueiro para nossas forças aéreas. Isso é positivo. A própria inauguração da embaixada é um sinal de como caminha a nossa relação.

Um símbolo?

Construir esse prédio tão importante foi uma decisão política tomada pelo presidente Néstor Kirchner, e foi um trabalho coletivo do qual participaram desde o chanceler (Rafael) Bielsa, o chanceler (Jorge) Taiana e agora o chanceler (Héctor) Timerman. Ter agora a senhora Cristina Kirchner conosco (na inauguração) é algo que coroa uma visão, conforme se pensou a relação entre Argentina e Brasil nestes oito anos.

Dilma Rousseff anunciou a construção de quatro submarinos
convencionais e um atômico. Isso altera o equilíbrio de poder?

Se o Brasil está em condições de construir um submarino atômico, a Argentina também está. Em última análise é uma decisão política. Temos hoje uma relação cooperativa e cada país tem as suas prioridades. Temos um litoral muito importante e não está descartado que a Argentina também desenvolva o seu submarino. Não digo que vamos fazer isso, é uma hipótese.

A Argentina é indiferente ao tema?

Ninguém é indiferente. Esse não é o termo. Creio que ter um submarino nuclear assegura uma capacidade de dissuasão. A Argentina pode pensar em algum momento que precisa fazer o mesmo ou não. Não é minha tarefa me ocupar desses temas. A Argentina constrói reatores nucleares e tem um potencial reconhecido internacionalmente. O desenvolvimento nuclear envolve decisões políticas. Mas, insisto, temos uma relação de cooperação e forte compromisso com a integração.

As presidentas assistiram juntas à posse de Ollanta Humala. O Brasil apoiou sua candidatura por vê-lo mais próximo do Mercosul do que do eixo do Pacífico. A Argentina tem a mesma opinião?

Creio que o presidente Hmala efetivamente fez manifestações explícitas de aproximação em direção à região, em direção a Unasul, a um vínculo privilegiado com o Mercosul, e tudo isso é bem vindo para a integração da América do Sul e da América Latina.

O ex-presidente Lula prometeu trabalhar em favor da integração regional. Qual sua avaliação sobre essa intenção?

Os ex-presidentes sempre mantem uma atividade bastante clara na América Latina. É o caso do presidente José María Sanguinetti (Uruguai), do presidente Fernando Henrique Cardoso (Brasil). Lula ainda tem uma margem enorme para trabalhar na região.

Nos últimos meses, o Brasil se aproximou dos Estados Unidos e se distanciou do Irã, países importantes na agenda argentina...

- Seria pouco elegante de minha parte opinar sobre as ações do chanceler do Brasil. A Argentina tem uma visão autônoma, tem uma relação com os Estados Unidos e uma relação com o Irã. O que o Brasil faz é outra questão e é preciso ver em que medida isso afeta o interesse da Argentina. Creio que, no caso em questão, não está nos afetando. Temos um pleito pendente com o Irã e transmitimos nossas inquietudes para a diplomacia brasileira. Você sabe que aquilo que, às vezes, parece uma diferença, pode ser uma via de solução ou de acordo. Isso pode mudar.

A diferença com o Irã pode ser solucionada?

Não digo que se atenue, digo que o que o Brasil faz em relação ao Irã, não influi naquilo que pensamos sobre o que ocorreu com o Irã e sobre o que está em andamento com esse país.

Tradução: Katarina Peixoto


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