Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

"Há uma caixa-preta na história do país"

Terça, 28 de Junho de 2011 às 09:15, por: CdB

Como sempre afirmo neste blog, a respeito da verdade histórica, direito de todos os brasileiros, o silêncio sobre as atrocidades cometidas durante a ditadura militar e seus autores será quebrado, cedo ou tarde.  Prova disso é o excelente trabalho da jornalista Vanessa Gonçalves sobre o militante Eduardo Leite, o Bacurí, lançado recentemente pela Plena Editorial. A biografia conta com 40 entrevistas de amigos e familiares de Bacuri e, evidentemente, com a contribuição  de sua companheira Denise Crispim que nos concedeu a entrevista abaixo.

Denise, como você definiria o Eduardo?

Uma pessoa extraordinária, dotada de muito espírito, grande senso de humor e com uma inteligência acima do comum. Um jovem que veio da classe média baixa, nascido  em Campo Belo, interior de Minas Gerais. Ele começou sua militância muito jovem, ao entrar no Exército. Como se apresentou tardiamente, ficou preso durante três meses e lá conheceu Wilson Fava, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Nós nos encontramos no início da minha militância, durante uma reunião na Lapa. Devíamos ter entre 18 a 20 anos.

Qual o significado deste livro?

É um atestado da mais completa violação de todos os direitos humanos. Não podemos permanecer mudos. O que fizeram com Eduardo foi monstruoso, desde o percurso à preparação de sua morte.  Sua história tem de ser conhecida por todos, ainda mais neste momento em que ousam discutir a legalidade da anistia para os dois lados. As práticas da repressão eram nazistas, bestiais, animalescas. O livro expressa a barbaridade da destruição por um ser humano de outro da sua própria espécie. Não há justificativa política, muito menos ideológica, para essa história de anistia para ambas as partes. Na visão dos órgãos de direito internacional isso não tem nenhum cabimento. Aliás, os jovens hoje do Exército precisam saber e questionar a verdade. Eles precisam saber o que representam, a quem eles protegem, a quem servem e o que aconteceu para que isso jamais se repita. O Exército não foi criado para massacrar o próprio povo, muito menos para fazer desmoronar um governo legitimamente eleito como foi o do presidente João Goulart, o Jango. Era indiscutível o seu direito de exercer o cargo e o mandato pleno até o fim.

Neste sentido, como você avalia a Comissão da Verdade e Justiça?

Ela é simplesmente indispensável. O Brasil não pode se consolidar como um Estado democrático sem o conhecimento de sua própria história. Como viver em uma democracia com esta caixa-preta? Os militares justificam o que fizeram atribuindo a si argumentos ideológicos, como se os direitos humanos estivessem vinculados à princípios políticos ou ideológicos. Diziam que lutavam contra os comunistas, mas aplicaram métodos nazistas. Fiz parte da resistência. Ela foi generosa e corajosa. Arriscamos e dispusemos nossas vidas pelo país. Havia militantes que ingressaram na luta armada e, também, os que optaram por outro tipo de resistência não armada - eles também foram torturados e assassinados. Também pagaram com a vida.  Ninguém chama os italianos ou os europeus que resistiram ao nazismo de terroristas, como fazem aqui. Lá, eles pegaram em armas também.

Nunca fomos criminosos como alguns hoje querem fazer crer. Bacurí estudava as ações para que não morresse ninguém. Nós lutávamos pela liberdade, contra a opressão, contra um Estado que assassinava seus jovens. Nossas ações eram para libertar o Brasil de um regime militar. Precisávamos de ações para manter a oposição clandestina, para continuarmos a luta.  A gente tinha uma relação de profundo amor e afeto. Cada companheiro que morria, era um pedaço nosso que caía.

Qual sua avaliação do processo de abertura no Brasil?

Tivemos um processo de abertura diferente no Brasil do que foi, por exemplo, na Argentina e no Chile, quando da volta do Estado democrático. Aqui, os militares puderam negociar a abertura e a anistia condicionadas. Mas veja, a anistia para quem não teve condenação? Não tem sentido algum. Quando dizem "eu não fiz nada", a gente se pergunta: "não?" Então, o Vladimir Herzog entrou lá dentro da cela para se pendurar sozinho? O Bacuri saiu andando e desapareceu por vontade própria? Não se pode subestimar a inteligência do povo desse jeito.

Cabe aos jovens brasileiros apurar a verdade sobre o seu país e conhecer os responsáveis por essas atrocidades. Há uma caixa-preta na história deste país. Jovens foram mortos dentro das delegacias, dos quartéis, dos hospitais, em instituições montadas exatamente para matar militantes políticos. A apuração da atuação dos agentes militares é fundamental. Precisamos saber o que aconteceu. Felizmente, vejo muitos jovens hoje preocupados com essa questão. Eles estão interessados, querem saber e têm todo o direito. Nós sabemos o que aconteceu. Ninguém quer reabrir feridas aqui. Elas já estão abertas dentro de cada um de nós e nada irá fechá-las. Muito ainda não foi dito e, pior, a história é escrita de forma distorcida. Querem que as pessoas pensem que éramos doidos e que saímos dando tiros por aí. Precisamos contar essa história direito, de uma vez por todas.

Qual a última vez que você viu o Bacuri?

Estava grávida quando fui presa. Fiquei em um hospital de fachada, na verdade era de propriedade militar e atrás havia centros de tortura. Foi lá que minha filha nasceu. Meu quarto era fortemente vigiado pelos policiais, porque acreditavam que o Eduardo iria aparecer por lá. Nem ao banheiro sozinha eu podia ir.  Certo dia, o Fleury (delegado Sérgio Paranhos Fleury) me levou à uma sala para ver o Eduardo. Ele estava algemado, com hematomas e queimaduras. Eles só nos deram um minuto. Ainda na prisão, lembro que ganhei de presente de uma mãe de uma das presas, um enxoval para minha filha. Um policial se ofereceu então para encaminhar, se eu quisesse, algo para ele que estava preso. Eu sonhava com essa chance. Enviei os sapatinhos deste enxoval e duas latas de leite condensado. Não recebi nenhuma mensagem dele depois disso, mas sei que ele soube do nascimento da filha, porque quando o tiraram da prisão, o carcereiro recolheu as coisas dele da cela, e os sapatinhos voltaram para as minhas mãos.

 

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