Allende é um dos políticos mais reverenciados da América Latina. Ele foi morto em 11 de Setembro, durante um golpe militar no Chile
Há exatos 40 anos, tanques e caças bombardearam o Palácio de La Moneda, de onde o presidente Salvador Allende, eleito pelo voto popular, saiu morto. Foi o início do golpe que levou o general Augusto Pinochet ao poder. Era 11 de setembro de 1973.
O diplomata Antonio Candido da Câmara Canto tinha, então, pleno conhecimento de que uma conspiração militar iria derrubar o então presidente Salvador Allende. Embaixador do Brasil no Chile desde 1968, hostil ao governo da coalizão esquerdista Unidade Popular e apreciador de cachimbos, ele frequentava os salões do elegante Club de la Unión, em Santiago. Também cavalgava na companhia de oficiais que orquestraram a queda de Allende.
No dia 8 de setembro, três dias antes do golpe, Câmara Canto vaticinou dias difíceis em telegrama para o Itamaraty: "A situação do Chile nunca esteve tão confusa e, ao mesmo tempo, tão crítica". O alerta do diplomata consta em arquivos guardados no subsolo do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília. Na véspera do envio do telegrama, ele recebera chefes das forças chilenas na festa de comemoração da Independência brasileira na embaixada. A reunião é considerada por historiadores como momento chave da conspiração.
Em outro informe, de 17 de setembro, Câmara Canto reconhece que há indefinição sobre a devolução do poder aos civis. Ele considera temerosa a possibilidade de eleições, já que as esquerdas poderiam vencer mais uma vez.
Passado sombrio
Passados 40 anos do golpe que colocou o Chile sob um dos regimes mais sanguinários da história latino-americana, o Brasil aparece em imagens pouco lisonjeiras. "Testemunhas que estavam no Chile durante o golpe do general Augusto Pinochet lembram de ter visto soldados brasileiros perambulando pelas ruas de Santiago às vésperas da quartelada. Outras contam, em processo judicial, que toxinas botulínicas, capazes de agir como veneno, foram introduzidas no Chile. Supostamente procedentes do Brasil, as substâncias teriam aportado no país por volta de 1980, sete anos depois do golpe, quando protestos contra a crise econômica afrontavam o regime", revela uma reportagem do diário conservador gaúcho Zero Hora.
Segundo Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, "uma investigação judicial é incentivada por organismos de direitos humanos para esclarecer o envenenamento de presos políticos com essas toxinas, em locais como o Estádio Nacional e masmorras de Santiago. Também consta nas investigações a morte, em 1982, do ex-presidente Eduardo Frei, na clínica Santa María, de Santiago. Democrata-cristão eleito pelo voto popular, Frei governou o país até 1970, quando foi eleito o socialista Salvador Allende, deposto e executado pelo golpe de 11 de setembro".
O juiz Alejandro Madrid não se manifesta sobre o assunto. Sua assessoria alega que o processo corre em segredo de justiça. A principal testemunha, no entanto, já morreu. Tratava-se do químico Eugenio Berrios, acusado de ter introduzido o gás sarin no país sul-americano. Ele foi retirado do Chile em 1991 pelos militares Tomás Casella, Eduardo Radaelli Copolla e Wellington Sarli Pose, que queriam vê-lo calado enquanto Pinochet ainda chefiava as forças armadas (mesmo após o fim da ditadura). Encontraram-no morto quatro anos depois. Recentemente, o próprio juiz Alejandro Madrid aumentou a pena dos três militares uruguaios acusados de terem sequestrado e assassinado Berrios.
A presença brasileira no golpe chileno é corroborada por outros testemunhos.
— Câmara Canto foi mais um integrante da junta militar chilena. Havia soldados do Exército Brasileiro nas ruas de Santiago quando houve o golpe — relata o senador brasileiro João Capiberibe, que conta sua passagem pelo Chile no livro Florestas do Meu Exílio, a ser lançado segunda-feira, às 19h, na Livraria Cultura.
Relato dramático
Jornalista brasileiro e ex-ativista político na década de 70, Cid Benjamim relembrou, em um texto publicado no perfil que mantém em uma rede social, intitulado "O 11 de setembro de 1973", os momentos difíceis vividos em Santiago do Chile:
Leia, a seguir, os principais trechos do texto:
Ao longo dos meus 64 anos de vida, tive muitas alegrias e tristezas. Felizmente, as primeiras foram em muito maior número.
Mas um dos dias mais tristes da minha vida foi o 11 de setembro de 1973.
Morava em Santiago, com minha mulher Isolde e nossa filha Ani, à época com três meses de idade. Eu e Isolde, ambos exilados, tínhamos entrado no Chile com passaportes falsos, porque de lá voltaríamos clandestinamente ao Brasil. A sucessão de prisões e mortes aqui inviabilizou nosso regresso.
Isolde engravidou, teve nossa filha, e, por dificuldades relacionadas com a burocracia, ainda não contávamos com documentos chilenos com nossos nomes verdadeiros.
No dia do golpe, saí cedo para um compromisso político. Nas ruas, senti um clima estranho. Perguntei a um popular, que me informou: “Los milicos se alzarón”.
Voltei e avisei Isolde, pedindo que ela preparasse as coisas para o caso de termos que sair rapidamente. Já não havia ônibus. Pegando carona e caminhando comecei a me deslocar pela cidade, àquela altura repleta de veículos militares com soldados.
Contatei militantes chilenos que conhecia, mas todos estavam desorientados. Os esquemas de resistência dos partidos de esquerda se baseavam, em grande medida, nas emissoras de rádio de que cada um deles dispunha. Mas todas as rádios receberam um ultimato dos militares para que entrassem em cadeia com uma emissora já ocupada por eles. Ainda assim, uma delas, a Rádio Magallanes, transmitiu o último discurso de Allende, feito quando o Palácio de La Moneda estava sendo bombardeado pela Força Aérea.
Esse discurso é uma peça histórica. Não o escutei no dia, mas cada vez que o ouço, mesmo anos depois, me emociono com a inteireza política, a lucidez e a coragem demonstrada pelo presidente chileno.
A Allende foi oferecida pelos golpistas a alternativa de seguir para o exílio, levando consigo todas as pessoas que desejasse, sem limite de número. Era uma tentativa de, além de pôr fim à experiência da Unidade Popular, desmoralizar seu líder máximo.
Allende recusou a proposta. Teve a compreensão de seu papel histórico. Percebeu que não tinha o direito de render-se para poupar sua vida e a de pessoas próximas, deixando o povo chileno entregue à sanha dos golpistas. Morreu de fuzil em punho no Palácio de La Moneda.
Andando nas ruas para um lado e outro, em busca de contatos com militantes de esquerda que conhecia, tentei, ainda, chegar aos chamados cordões industriais, o conjunto de fábricas na periferia de Santiago. Lá eu conhecia ativistas que tinham forte liderança. Mas a região já estava sendo cercada por forças do Exército.
Dei meia-volta e comecei uma caminhada para casa. Ela duraria umas duas ou três horas. Presenciei, então, uma das cenas mais tristes de toda a minha vida: centenas de trabalhadores andando cabisbaixos, em fila indiana, muitos com marmitas nas mãos, depois de deixar as fábricas, e sendo monitorados por soldados do Exército armados de fuzis. A derrota estava estampada no rosto de cada um deles. Tive vontade de chorar.
A essa altura eu não sabia, mas as rádios pediam insistentemente que a população denunciasse estrangeiros que estivessem no país: “Eles podem estar aqui para matar chilenos”.
Pouco depois encontrei por acaso Sérgio de Castro Lopes, um brasileiro que vivia legalmente no Chile. Sérgio estava de carro e me deu uma informação fundamental: a partir das 14 horas, cerca de duas horas depois, entraria em vigor o toque de recolher. Quem estivesse nas ruas seria preso.
Fez mais: ofereceu-se para me dar carona até a minha casa e, depois, me levar, com Isolde e Ani, para a residência de uns amigos ingleses. Seria um lugar muito mais seguro. Aceitei de bom grado. Para não despertar suspeitas, fomos só com a roupa do corpo e as fraldas e mamadeiras da Ani para a casa dos ingleses. Eles moravam num local amplo, com um vasto quintal arborizado e nos receberam muito bem. Ficamos lá uns dois dias. Nesse meio tempo, nos intervalos do toque de recolher, saí umas duas ou três vezes para encontrar conhecidos brasileiros e chilenos, mas ninguém tinha a mínima idéia de como resistir.
Diante disso, consideramos inútil continuar no Chile. O casal de ingleses nos levou de carro à porta da embaixada do México, a mais próxima de onde estávamos, onde nos refugiamos. Depois soubemos que a casa em que morávamos tinha sido invadida e saqueada pelo Exército.
Tivemos muita sorte. Primeiro, por eu ter encontrado Sérgio – pessoa amiga e solidária – que me trouxe a informação preciosa sobre o toque de recolher, me deu carona e nos conseguiu guarida com o casal de ingleses. Mas também porque minutos depois de termos entrado, sem problemas, na embaixada do México, ela foi cercada por carabineiros.
Passamos uns 20 dias na embaixada. Havia cerca de 200 pessoas na casa, que era grande, mas sem capacidade para receber tanta gente. As janelas tinham que ficar sempre fechadas, para evitar o risco de franco-atiradores, que já haviam assassinado com um tiro de fuzil uma refugiada que estava no gramado da embaixada da Itália.
O embaixador e os diplomatas mexicanos se esmeravam, mas tinham dificuldades para receber e alimentar tanta gente. Na casa, nos revezávamos para dormir, porque não havia lugar para todo mundo deitar, mesmo no chão. Os banheiros não davam conta da quantidade de gente e, logo, os vasos sanitários começaram a entupir. Muitas crianças passaram a ter diarréia. Foi uma situação difícil. Mas, pelo menos, estávamos a salvo da barbárie que se instalou naquele lindo país – na época, o mais politizado da América do Sul.
Como tínhamos criança pequena, fomos escalados para seguir rumo ao México no primeiro vôo de refugiados a deixar a embaixada.
Viajei de coração partido. Criara vínculos afetivos com o Chile e antevia dias muito difíceis para aquele povo acolhedor e generoso.
Tenho uma filha chilena e um filho brasileiro, cuja mãe é uma chilena com quem me casei na Suécia e voltou comigo para o Brasil depois da anistia. Estamos separados, mas ela optou por continuar no Brasil. Continuamos grandes amigos.
A cada 11 de setembro me lembro, emocionado, daqueles dias, com enorme carinho pelo povo chileno.
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