A guerra de guerrilha que se alonga na Colômbia por mais de 20 anos apresenta uma nova - e terrível - faceta. Homens armados utilizam o corpo das mulheres como escudo de guerra para semear o terror nas comunidades, impor controle militar para obrigar o povo a fugir de suas casas e se apropriar de seu território, se vingar dos adversários, acumular "troféus de guerra" e explorá-las como escravas sexuais. Isto é o que revela a relatora especial sobre a Violência Contra a Mulher, uma comissão das Nações Unidas naquele país, Radhika Coomaraswamy, que também afirma que a violência sexual é utilizada como forma de castigo para as mulheres que, supostamente, têm algum tipo de relação afetiva com membros do grupo inimigo, o que se presume que colaboram com o "inimigo". Neste sentido, é uma forma de advertência para as demais mulheres da comunidade.
Segundo o boletim Hechos de Calejón, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na Colômbia, esta situação é notória em conflitos armados como o colombiano. A violência sexual geralmente se apresenta como uma forma de humilhar o inimigo: é um meio para causar alarde nos homens do lado contrário e para lhes demonstrar que não foram capazes de proteger suas mulheres. É uma mensagem de castração e mutilação ao inimigo. Também é comum a fecundação forçada para humilhar ainda mais a vítima e sua comunidade, obrigando-a a conceber um filho do inimigo.
Dentro do conflito armado, este tipo de violência é utilizado para degradar o grupo contrário com o corpo das mulheres, bem como para humilhar e atemorizar a comunidade, afirma Paola Figueroa, da Mesa Mulher e Conflito Armado. A Mesa é uma espaço de coordenação e reflexão sobre as diferentes formas de violência contra as mulheres e crianças no contexto do conflito armado, formado por diferente organizações do país que trabalham no tema.
"No conflito, a violação sexual é uma prática realizada pelos atores armados como uma verdadeira arma de terror e é uma grave violação dos direitos humanos e do direito internacional humanitário", diz o quarto relatório da Mesa sobre violência sócio-política contra mulheres, jovens e crianças na Colômbia.
Com o conflito armado se exarceba a discriminação contra as mulheres e todos os delitos contra elas, adverte Patrícia Buriticá, da Iniciativa de Mulheres pela Paz (IMP), uma aliança formada por 22 organizações de mulheres, 246 processos regionais e oitos setores (indígenas, camponês, sindicalistas, jovens, acadêmicas, feministas, líderes da paz e da cultura, e afro-descendentes). "Os delitos conta as mulheres no conflito armado tornam-se invisíveis por outros delitos que são considerados de maior gravidade. Frente a um homicídio ou uma chacina se tende a observar que os delitos contra as mulheres são de menor importância", disse Buriticá.
A violência sexual também é utilizada como forma de intimidação, castigo, represália ou pressão para obter informação e para repreender os homens que não trabalham para um determinado grupo ilegal. De acordo com o último relatório da ONG internacional Conselheira em Projetos, o fato de que, culturalmente, os homens não sejam considerados propriedade das mulheres faz com que a violência não opere de forma inversa, ou seja: não se exerça violência sexual contra os homens para castigar as mulheres. Portanto, a violência sexual busca quebrar, emocionalmente, os homens e pôr, em entrelinhas, o modelo hegemônico de masculinidade na comunidade em que vivem.
No contexto do conflito, a violação é considerada de menor importância, "porque não foram torturadas como os homens, porque só foram violadas na vergonha, mas as deixaram vivas", diz o estudo Impunidade, da Conselheira em Projetos. Para Clara Elena Cardona, da Casa da Mulher - ONG que trabalha pelos direitos humanos das mulheres -, a violência sexual se fundamenta numa cultura patriarcal, determinada para que os homens tenham o poder e as mulheres fiquem submissas a eles.