O anúncio feito na semana passada pelo Departamento de Defesa dos EUA sobre o chamado "Sistema de Combate do Futuro" implica na aceitação sem reservas da visão de guerra formulada durante a Guerra de Secessão Americana pelo General Sherman (1820-1891). Na ocasião, Sherman, encarregado de submeter a Geórgia, partindo a Confederação em duas porções territoriais descoordenadas, ordenou o incêndio da cidade de Atlanta, ante o estupor das autoridades e das próprias tropas confederadas. Ante o protesto indignado, Sherman respondeu que "a guerra era sinistra mesmo, um verdadeiro inferno". No seu sentido moral, por não ser o responsável por ter desencadeado o conflito, possuía a liberdade de recorrer a quaisquer meios para encerrá-la.
As formulações de Sherman seriam bem aceitas por Carl von Clausewitz (1780-1831), o teórico alemão da guerra, que afirmaria que toda a guerra tende ao seu extremo. O que o famoso general alemão afirmava, ainda no século 19, seria uma realidade em todas as guerras posteriores: as potências envolvidas em conflitos nos quais sua sobrevivência ou a garantia de seus interesses estivessem em risco não hesitariam em recorrer a quaisquer meios - mesmo os mais cruéis, desumanos ou imorais - que estivessem ao seu alcance. O uso do cerco de cidades e sua redução pela fome e pelo fogo; o ataque a navios mercantes e a guerra submarina; o uso dos gases venenosos e das armas atômicas contra cidades desarmadas, além do terrorismo em larga escala, só confirmariam as asserções de Sherman e Clausewitz.
Guerra: uma constante da história
Da chamada "Batalha de Krapina", onde os primeiros Homo Sapiens atacaram e canibalizaram Homens de Neanderthal, numa aldeia na Hungria Paleolítica até a atual Guerra no Iraque, a história da guerra tem sido uma crônica sinistra, que envergonha o gênero humano. Mas tem sido também um dado constante da história. Assim, seria fantasioso pensar na abolição da guerra e de todas as suas implicações.
Na prática, a criação de mecanismos jurídicos aceitos mundialmente de controle e limitação da guerra, através de organismos como uma ONU refundada e ampliada, além de convenções específicas interditando aspectos concretos da guerra (tais como as convenções antiminas pessoais; a interdição de crianças e adolescentes engajados; contra o comércio de armas automáticas ou contra a guerra química ou bacterológica etc.) seria uma solução progressiva e realista.
Da mesma forma, ao longo da história, as guerras foram limitadas por constrangimentos objetivos, de cunho material. As condições do tesouro francês, malgrado as operações brilhantes de Colbert, eram um entrave real às ambições imperiais de Luis 14. Em várias ocasiões ingleses e franceses foram levados a aceitar tréguas ao longo das Guerras Napoleônicas (1804-1814) em virtude do esgotamento de seus recursos. Também a disponibilidade de conscritos - do manpower, conforme os americanos - poderia limitar as ambições belicistas de uma potência. O recurso a mercenários seria, sempre, caro e nem sempre confiável, como apreenderam os romanos ao introduzirem bárbaros germanos em suas fileiras.
Os Estados Unidos encontram-se hoje no centro de tais considerações. Após a guerra do Vietnã (1964-1975), consolidou-se na América a chamada "Síndrome do Vietnã", um verdadeiro pânico frente a macabra rotina de contagem de corpos. Para a liderança militar, tornou-se imprescindível a possibilidade de aplicação de planos alternativos de guerra e de saídas políticas de conflitos, evitando o atoleiro militar vivido no Sudeste Asiático. Desde então, os generais americanos passaram a incorporar a variável política - a solidez política do front interno - como elemento de cálculo de todos os planos de guerra.
Força e vulnerabilidade da América
Era fundamental elaborar uma resposta adequada. Tratava-se claramente de reelaborar o que Clausewitz denominou "ponto de gravidade". Um diagnós