Rio de Janeiro, 25 de Outubro de 2026

Guerra de rapina

Quarta, 31 de Agosto de 2011 às 19:37, por: CdB

Não hánenhuma segurança de que os novos donos do poder, na Líbia, seguirão caminhodiferente do antecessor, em termos de pouco apreço à democracia. A diferença,talvez, é que será um regime dócil aos interesses das grandes potências e,assim, bem-quisto, como o é a ditadura da Arábia Saudita - que inferniza a vidade seu povo - e outros regimes igualmente despóticos, mas que entregam suasriquezas de mãos beijadas aos ocidentais. Fosse sincero o objetivo democráticodos interventores, as demais ditaduras estariam com os dias contados. Mas, nãoé isso o que acontece: não se mexe em quem fecha os olhos ao saque da riquezanacional por forças estrangeiras. O escândalo maior é o descaramento com que asgrandes potências trataram a resolução do Conselho de Segurança da ONU queimpunha limites à intervenção.

TRAMAANTIDEMOCRÁTICA

Há exatos 50anos, a democracia brasileira sofria uma tentativa de golpe realizada porfacções direitistas militares e civis. Desconcertados pela falta de apoiopopular a Jânio Quadros, depois que este anunciou a renúncia ao cargopresidencial (na verdade esperavam que o povo exigisse a volta de Jânio e esteentão regressaria com todos os poderes e fecharia o Congresso, onde não tinhamaioria), os três ministros militares, passando por cima da Constituição,vetaram a posse do vice-presidente constitucional João Goulart (Jango), odiadopelas forças conservadoras por ter sido ministro do Trabalho de Getúlio e terperfil nacionalista. Não imaginavam deparar-se com a resistência de LeonelBrizola, governador do Rio Grande do Sul, do próprio povo gaúcho e do IIIExército. Mas foi o que aconteceu.

RESISTÊNCIAE DECEPÇÃO

Brizolaentrincheirou-se no Palácio Piratini e de lá formou uma rede de emissoras derádio – a Cadeia da Legalidade – pregando resistência ao golpe e o respeito àConstituição. Ficou ao seu lado, o comandante do III Exército, general MachadoLopes e a Brigada Gaúcha (Polícia). Armas foram distribuídas ao povo. Em todo opaís, as forças democráticas manifestaram apoio à posse de Jango. À beira daguerra civil, os golpistas pensaram duas vezes e quando já temiam que oconfronto lhes fosse desfavorável, João Goulart, de maneira decepcionante,aceitou um acordo pelo qual assumia o poder, mas dentro de um regimeparlamentarista, onde deveria ser apenas uma figura decorativa.

ALERGIA ÀDEMOCRACIA

A crise de1961 era apenas mais uma investida das forças golpistas conservadoras que nãose haviam conformado com a redemocratização de 1946. De novo, as elitestradicionais, aliadas à Washington, tentavam travar um caminho dedesenvolvimento nacional independente. Nunca aceitaram a democracia, em todasas suas consequências, pois esta sempre lhes tinha sido desfavorável. Em 1954,encurralaram Getúlio Vargas, que vinha sendo alvo de uma campanha infamante,desde que se decidira pela criação da Petrobras. Cercado, o velho presidentepreferiu matar-se a ser deposto. Isso provocou uma enorme onda de indignaçãopopular contra os golpistas, impedindo-os de assumir o poder.

DERROTA DADEMOCRACIA

Tentaram,então, impedir a eleição de Juscelino Kubistchek. Falharam. Tramaram contra suaposse. Empossado, promoveram duas sublevações para derrubá-lo. Com a eleição deJânio Quadros, pensava-se que tinham amainado a sede de poder. Engano: queriampoder absoluto. Nada de Congresso. Falhado o golpe da renúncia, os ministrosmilitares tentaram impedir a posse do vice Jango. Não o conseguiram, diante daresistência popular. Três anos depois, em 1964, finalmente obtiveram o quequeriam, com o auxílio da CIA e do Pentágono, inaugurando uma ditadura quedurou mais de 20 anos.

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