Por Moisés Rabinovici - Quem não quer guerra, não a provoca. Quem não quer guerra, aceita trégua. Quem quer paz, não rompe cessar-fogo. Ontem li, num jornal israelense, que só existe uma forma de vencer a vitoriosa batalha palestina pela opinião pública mundial: morrer mais judeus.
Colunista lembra que arsenais do movimento Hamas estão até em escolas, como noticiou a ONU
Quem não quer guerra, não a provoca. Quem não quer guerra, aceita trégua. Quem quer paz, não rompe cessar-fogo.
Ontem li, num jornal israelense, que só existe uma forma de vencer a vitoriosa batalha palestina pela opinião pública mundial: morrer mais judeus.
Não há como não se revoltar diante dos corpos de quatro garotos na praia de Gaza, depois de um bombardeio de caças israelenses.
Assim é a guerra: os mísseis não escolhem crianças, velhos, mulheres ou soldados, depois de lançados. Os primeiros mísseis desse novo round da guerra sem fim entre árabes e judeus partiram das rampas palestinas em Gaza.
Por que foram disparados? Porque um garoto palestino foi executado por fanáticos judeus, já presos, depois que três outros garotos, dois israelenses e um americano, morreram ao serem sequestrados por um grupo do Hamas, ainda livre, nem sequer perseguido.
Choveram mísseis por alguns dias, com Israel alertando: parem com isso. Até que veio a represália, sempre pesada, dois olhos contra um olho, quando o primeiro-ministro é Bibi Netanyahu. Agora Israel avança com tanques para dentro de Gaza.
Os mísseis não pararam. Se não matam, como os israelenses, é porque são lançados a esmo, sem mira, mas contra a população civil. Se um deles explodir numa escola, ou no reator nuclear de Dimona, terá sido por acaso. Aí mora o perigo de uma tragédia.
Mas Israel protege sua população, avisando-a quando procurar os abrigos antiaéreos, até mesmo por aplicativo em celular. Mais de 1500 mísseis disparados (e contando), com muitos deles interceptados pelo sistema de defesa Domo de Ferro -- e só um morto.
Ao contrário, o Hamas não parece dar valor à vida dos palestinos. Seus arsenais, agora incluindo foguetes iranianos de longo alcance, estão sob o escudo protetor da população civil: prédios residenciais, hospitais, mesquitas e até a escola da ONU.
Antes de partir para o ataque, Israel tem telefonado para quem esteja nos alvos, ou lança panfletos, advertindo aos não combatentes que saiam dali, e às vezes ainda avisa a hora em que a volta não terá mais perigo. O Hamas sai às ruas contestando: os avisos seriam uma armadilha israelense.
Então, os corpos que dilaceram os corações no mundo todo vão sendo enterrados, em dramáticas, trágicas, furiosas procissões.
Para não ter mortos, só não provocar a guerra. Gaza foi restituída pelo brutamontes general Ariel Sharon na esperança de paz, como o foi todo o deserto do Sinai, ao Egito. Seria o porto da Palestina, unido por túnel à Cisjordânia, se a Autoridade Palestina e o Hamas topassem reconhecer o seu vizinho, Israel.
Mas essa rejeição é antiga, data da partilha da Palestina, em 1947. Numa das três vezes em que estive com Yasser Arafat, no Líbano e em Gaza, perguntei por que ele não aceitava o possível oferecido em Camp David, mais de 95% de suas reivindicações, e insistia em algo que acreditava melhor, mas incerto e num futuro imprevisível. Resposta evasiva, entendi que ele não podia, temendo ser assassinado. Preferiu lançar uma nova Intifada.
Voltemos aos mortos. Estive numa creche israelense banhada em sangue depois de um atentado palestino. Estive em Sabra e Shatilla. Fui aos acampamentos libaneses dos soldados da paz franceses e americanos em que centenas morreram com homens-bomba que se explodiram para ganhar o céu e 72 virgens.
Esse é o valor que um mártir dá a vida. Horror! A hipocrisia está na macabra valorização dos cadáveres, como ações no mercado.
Uma criança palestina vale mais que três israelenses. E os 200 mil mortos na Síria, muitos deles abatidos por armas químicas? E os 50 mil mortos na guerra do México contra narcotraficantes, até 2006? O genocídio do povo tútsi em Ruanda, em 1994, com 500 mil a 1 milhão de mortos?
Entre 1987 e 2011, cerca de 1600 palestinos morreram nas lutas internas entre eles próprios. Darfur já enterrou 300 mil corpos, desde 2003. O golpe no Egito deixou 1100 vítimas, no ano passado. Nos primeiros meses deste ano, os islâmicos do Boko Haram mataram 2053 civis. E ontem foi abatido um avião malaio com 295 passageiros.
Nós, jornalistas, sempre repetimos que, quando começa uma guerra, a primeira vítima é a verdade. Precisamos lembrar também que, numa guerra, as vítimas são inevitáveis, sejam quais forem a nacionalidade, sexo, idade e cor. Destacar um morto de outro, atribuir valores a cada um, beira o racismo.
O verdadeiro combate é contra a guerra, as guerras; e a luta pela paz.
<b>Moisés Rabinovici</b>, jornalista, ex-correspondente do Estadão em Israel, atual diretor do Diário do Comércio de São Paulo.
<b>Direto da Redação</b> é editado pelo jornalista Rui Martins
Tags:
Relacionados
Edições digital e impressa
Utilizamos cookies e outras tecnologias. Ao continuar navegando você concorda com nossa política de privacidade.