As geleiras estão perdendo terreno em todo o mundo cada vez mais rápido. O alerta parte de um relatório inédito do grupo ambientalista WWF (Fundo Mundial para a Vida Selvagem, na sigla em inglês) apresentado em Milão, na vigília da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que será realizada na cidade entre os dias 1º e 12 de dezembro.
As geleiras são antigas camadas de neve acumuladas e comprimidas, umas sobre as outras, ao longo dos tempos. São a principal testemunha da última era glacial, ocorrida 10 mil anos atrás, e sentem agora os efeitos da mudança do clima do planeta.
Durante o inverno, estas montanhas de gelo acumulam massa com as nevascas e, no verão, ocorre o inverso. O problema é que a perda de água está muito acelerada. O aquecimento global provoca o derretimento dos glaciares. E isso ocorre principalmente na cadeia dos Alpes.
- As condições climáticas da região estão sujeitas às influências de ventos quentes da África, das frentes frias da Sibéria, das variações de temperatura do Oceano Atlântico e do Mar Mediterrâneo - diz o pesquisador Luca Mercalli, da Sociedade Meteorológica de Turim.
"Conseqüentemente, estão mais expostos e, por isso mesmo, servem de laboratório para o futuro de outros glaciares no planeta."
Verão atípico
O verão de 2003 foi o mais quente e seco dos últimos 250 anos. A média ficou entre dois a três graus centígrados acima das máximas históricas assinaladas.
O resultado foi a impressionante perda da espessura média do gelo de três metros, a uma altura de 3 mil metros, nunca antes observada.
Este número é dez vezes superior ao valor médio de "encolhimento" estudado entre os anos de 1850 e 2000, e cinco vezes mais alto do que a velocidade registrada entre 1980 e 2000.
As geleiras alpinas ficaram 10% menores. O dado é alarmante, pois a região concentra as nascentes dos rios Po, Ródano e Reno, fundamentais para os países da Europa Central, como França, Suíça, Áustria, Alemanha e Itália.
A geleira Lys, nos alpes italianos, vem sendo monitorada desde 1812. De lá para cá, jà recuou 1.285 metros. Já a Ciardoney perdeu na última década o equivalente a 14,3 metros de lâmina d'àgua espalhada por toda a superfície.
- Além de ser uma ameaça às reservas hídricas, o encolhimento de uma geleira aumenta a possibilidade de criação de lagos na borda das montanhas, deslizamentos de terra e enxurradas, colocando assim em risco as populações que vivem nos vales - disse Tatjana Brombach, responsável da WWF pelos programas de intervenção nos glaciares alpinos.
- Estamos trabalhando para que alguns rios retomem o seu curso original, ou pelo menos que novas barragens não desviem estes caminhos naturais, pois eles são importantes para a segurança dos habitantes da região e para o equilíbrio da região -concluiu a pesquisadora.
O problema nos Alpes se repete em outras geleiras do planeta. Na cadeia dos Andes, o fenômeno ameaça populações do Equador, da Bolívia e do Peru.
No Himalaia, 44 geleiras no Nepal e Butão estão prestes a mudar de estado físico. O derretimento das geleiras, nascentes de sete importantes rios da Ásia - entre eles o Mekong, o Yantze e o Ganges - põe em perigo um terço da população do mundo.
A reação em cadeia vai desde o aumento do nível do mar até a falta de água para beber e irrigar as terras para a agricultura. As geleiras de todo o mundo concentram 70% da reserva de água potável do planeta.