Por Mário Augusto Jakobskind - O ano de 2015 começa bem mais movimentado do que se imaginava. Argentina e Grécia ocupam grandes espaços midiáticos em função de uma morte em circunstâncias no mínimo estranhas e de uma eleição em que o povo deu o recado contra a austeridade defendida com unhas e dentes pela Primeira Ministra alemã, Angela Merkel e Fundo Monetário Internacional.
Revolta eleitoral do povo grego elegendo Syrisa contra a austeridade européia e o enigma argentino, quem matou Nisman?
O ano de 2015 começa bem mais movimentado do que se imaginava. Argentina e Grécia ocupam grandes espaços midiáticos em função de uma morte em circunstâncias no mínimo estranhas e de uma eleição em que o povo deu o recado contra a austeridade defendida com unhas e dentes pela Primeira Ministra alemã, Angela Merkel e Fundo Monetário Internacional.
O Procurador Alberto Nisman tinha sido convidado pela oposição para falar ao Congresso sobre sua denúncia, de encobrimento pelo governo de Cristina Kirchner da participação iraniana em atentado contra a Associação de Mutuários Israelita Argentina (AMIA), ocorrida em 1994. Mas não deu para Nisman comparecer, pois foi encontrado morto no apartamento. E ao que tudo indica, as denúncias apresentadas parecem absolutamente sem provas.
Imediatamente as baterias midiáticas conservadoras, sobretudo via jornal Clarin, se voltaram contra a Presidenta Cristina Kirchner, que vem sendo objeto de um verdadeiro linchamento político, principalmente depois da aprovação pelo Congresso e sanção presidencial da nova legislação midiática.
Para se ter uma ideia do tipo de cobertura dada pelos jornalões e telejornalões, vale lembrar que ojornal Clarin praticamente logo de saída divulgou que as investigações concluíram que o tiro que vitimou Nisman foi desfechado a uma distância de 10 a 15 centímetros de onde estava alojada a bala no cérebro.
Só que a promotora Viviana Fein, que investiga a morte de Nisman revelou que "o disparo foi a uma distância não maior que um centímetro" e que "a arma foi apoiada sobre a têmpora".
Praticamente todos os jornais do continente americano, de O Globo, passando pelo Estadão, Folha de S. Paulo, La Nacion e tantos outros divulgaram logo de saída a versão do Clarin e não a da promotora.
A “verdade” manipulada pelo jornal que está em litígio com Cristina colocava em dúvida se Nisman se suicidou ou foi assassinado. Só no dia seguinte, mas sem grande destaque se divulgou o parecer da promotora Viviana Fein. Na prática, portanto, prevaleceu o argumento que dava margem a se concluir que outra pessoa atirou contra Nisman. E isso antes mesmo de se concluir as investigações, que seguem.
A ‘denúncia’ de Nisman não sobreviveria por mais tempo, mas a morte dele (por suicídio ou não) o eleva à condição de vítima de uma conspiração, que o jornal Clarin se encarrega de repetir sem descanso com repeteco pelo continente. E então alguns argentinos aceitaram a versão segundo a qual a morte de Nisman foi por culpa do governo Cristina Kirchner e saíram a rua com cartazes do gênero “Eu sou Nisman.
Clarin quer de todas as formas incutir na opinião pública a versão segundo a qual Cristina Kirchner e seu Ministro do Exterior, Héctor Timerman encobriam a participação iraniana no atentado terrorista na AMIA em função de um suposto acordo secreto de troca de grãos de trigo por petróleo.
Não é de hoje que os Estados Unidos demonstram contrariedade com o fato de a Argentina e o Irã promoverem acordos comerciais. Nos anos 90, ainda em pleno governo Carlos Menem, pressionaram o país por causa de um acordo nuclear argentino iraniano. Menem não resistiu e voltou atrás.
E assim foi até se chegar aos dias atuais em que tentam incriminar, sem provas, figuras da cúpula iraniana como responsáveis pelo atentado de 1994.
A morte de Alberto Nisman realmente possui ingredientes estranhos, dignos de envolvimento de serviços secretos. O tema vai render, ainda mais pelo fato de que no mês de outubro os eleitores argentinos escolherão quem sucederá Cristina Kirchner.
Clarin tentará manter o caso Nisman na ordem do dia até lá, para ver se o acontecimento influirá na opção dos eleitores. Quanto maior a possibilidade de o tema render, melhor para o jornal Clarin, que tentará de todas as formas ajudar a eleição de algum candidato que se comprometa a rever a legislação dos meios de comunicação em vigor e que o referido diário nunca se conformou.
Esta pode ser uma das chaves para tentar entender o mistério que ronda as circunstâncias da morte do Promotor Alberto Nisman.
Mudança de 180 graus
Já na Grécia, a vitória do Syriza, grupo político de esquerda que conquistou 149 cadeiras do Parlamento de um total de 300 e conseguiu que seu líder Alexis Tsipras se tornasse Primeiro Ministro deixou a mídia conservadora atordoada.
Num primeiro momento após a confirmação da vitória do Syrisa, alguns telejornalões brasileiros se superaram em matéria de perplexidade. A Band News, por exemplo simplesmente se referiu ao resultado eleitoral da Grécia mostrando o derrotado Primeiro Ministro, de centro direita, Antonis Samaras, nem mostrando a imagem dos militantes do Syrisa.
Pode-se imaginar a cobertura de uma vitória eleitoral só mostrando a parte derrotada? É o que aconteceu no domingo (25) à noite quando os telespectadores brasileiros procuravam informações sobre o principal acontecimento do dia no mundo.
A Globo News não ficou atrás ao divulgar apenas o líder esquerdista vitorioso Alexis Tsipras preparando–se para saudar os correligionários que nem foram mostrados. Nada de imagem das pessoas festejando.
No dia seguinte os impressos se limitavam a divulgar que a extrema esquerda venceu na Grécia e que o Ocidente estava preocupado com o fato.
Na verdade, muitas informações que seriam úteis para os brasileiros entenderem o recado dos eleitores gregos não foram divulgadas.
O que não se divulga
O mundo precisa saber, mas a mídia conservadora prefere silenciar, que quatro em cada cinco moradias na Grécia não podem ter aquecimento. Os gregos são obrigados a acender fogueiras de lenha e já houve vários casos de mortes por asfixia.
Em função da criminosa política de austeridade, para salvar bancos, defendida com unhas e dentes pela Primeira Ministra alemã Angela Merkel muitos gregos tiveram a energia cortada por se encontrarem sem condições de pagar um imposto extra. E o que acontece então: quem não paga tem a energia cortada impiedosamente e se voltam para a lenha como forma de enfrentar o frio barra pesada.
Só que sindicalistas do setor elétrico denunciam, sob silêncio midiático conservador, que empresas pagavam ou a metade do valor do imposto ou mesmo nada, ficando tudo por isso mesmo.
A austeridade provocou ainda forte desemprego, inclusive atingindo em cheio 60% dos jovens. Três milhões de gregos ficaram sem acesso a atendimento médico público. Criou-se então um movimento que recebeu a denominação de “Não nos matem”. O objetivo era o de mostrar a que ponto chegou à política criminosa na área de saúde.
Para se ter uma ideia dos custos, um parto sai por mais de 700 euros, cesariana 1.200, uma radiografia 100 euros e assim vai. O que provocou isso? Segundo denúncias, não divulgadas pela mídia conservadora, um aumento de abortos não desejados.
E o governo derrotado nas urnas respondia sem dó e piedade, que “doenças como câncer não são urgentes a menos que estejam em estágio terminal”.
O responsável em determinado momento pela área de saúde era o mesmo que escreveu um artigo sob o título “Os judeus: toda a verdade”, onde ele negava o holocausto. Mas não houve muita repercussão do tema.
O novo Primeiro Ministro Alexis Tsipras terá também um desafio importante, qual seja o de fazer com que a mídia pública volte a ter protagonismo já que foi totalmente canibalizada pelos que estavam no poder levando adiante a política criminosa de austeridade.
Em suma, somos todos Syrisa ou não somos? Quem não aceitar essa premissa poderá aderir ao “Somos Angela Merkel”.
Ah, sim, no primeiro Conselho de Ministros lgo a após a vitória e a posse como Primeiro Ministro, Alexis Tsipras destacou que suas prioridades serão, entre outras, renegociar a dívida e combater o desemprego, lutar contra a corrupção e a evasão fiscal. Inda por cima garantiu que se for necessário “suar sangue” para recuperar a dignidade da Grécia, isso será feito.
Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , será lançado dia 17, no Rio de Janeiro.Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas colunistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.
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