Rio de Janeiro, 16 de Outubro de 2026

Grandes empresas amargam graves prejuízos com elevação no preço do dólar

A valorização de cerca de 17% do dólar no trimestre passado e o cenário de incertezas econômicas causou estragos pesados nos primeiros balanços do setor de papel e celulose. Exposição a derivativos cambiais fez a Aracruz sofrer um prejuízo no trimestre que anulou o lucro de todo o ano de 2007 e a VCP passou do azul para o vermelho, afetada pelo efeito cambial sobre sua dívida em moeda estrangeira. Furlan, da Sadia, disse que declaração de Lula 'foi infeliz'

Sexta, 17 de Outubro de 2008 às 10:08, por: CdB

A valorização de cerca de 17% do dólar no trimestre passado e o cenário de incertezas econômicas causou estragos pesados nos primeiros balanços do setor de papel e celulose. Exposição a derivativos cambiais fez a Aracruz sofrer um prejuízo no trimestre que anulou o lucro de todo o ano de 2007 e a VCP passou do azul para o vermelho, afetada pelo efeito cambial sobre sua dívida em moeda estrangeira.

A Aracruz teve prejuízo líquido de R$ 1,642 bilhão no terceiro trimestre e cortou em cerca de US$ 900 milhões investimentos que estavam previstos até 2009. Em todo o ano de 2007, a companhia teve lucro líquido de R$ 1,04 bilhão. Na véspera, outra empresa do setor a cortar investimentos e divulgar prejuízo foi a Klabin, maior do segmento de papéis e embalagens.

A Aracruz está envolvida em um processo de fusão com a VCP que foi suspenso diante das perdas com derivativos e do quadro de incerteza econômica. A VCP teve prejuízo de R$ 586 milhões no trimestre passado, ante lucro de R$ 278 milhões um ano antes.

Entre os investimentos revistos da Aracruz está a suspensão temporária da expansão da fábrica de Guaíba, no Rio Grande do Sul, e de compra de terras e formação de florestas para a joint-venture Veracel, na Bahia, e para o terceiro complexo fabril no país a ser instalado na região de Governador Valadares (MG).

A Aracruz informou despesa financeira líquida de R$ 2,462 bilhões no trimestre encerrado em setembro, contra receita de R$ 241,9 milhões um ano antes. O resultado financeiro foi impactado por operações com derivativos em que a empresa mantinha posições vendidas em dólar numa taxa média de R$ 1,76. Em setembro, o dólar se valorizou em 17%, fechando a R$ 1,906.

O total de contratos de dólar futuro de tipo target forward da Aracruz no terceiro trimestre tinha valor justo negativo de R$ 1,692 bilhão ante R$ 26 milhões positivos no segundo trimestre. O efeito da variação cambial resultou ainda em despesa contábil de R$ 347 milhões no trimestre passado sobre a dívida da companhia, que fechou em R$ 3,19 bilhões ante R$ 2,06 bilhões um ano antes.

Celulose

O prejuízo não foi ainda maior porque a companhia registrou um crédito tributário de R$ 788 milhões, de acordo com o balanço divulgado nesta sexta-feira.

"Apesar de os fundamentos do negócio da Aracruz permanecerem sólidos... a liquidez da companhia tem sido seriamente afetada pela baixa disponibilidade de crédito e pelo aumento da percepção de risco do mercado financeiro", afirmou em comunicado o vice-presidente de finanças Valdir Roque, recentemente integrado à companhia após a saída do antecessor Isac Zagury, no mês passado.

Operacionalmente, a geração de caixa ajustada - medida pelo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) - atingiu R$ 323,7 milhões no trimestre encerrado em setembro. No mesmo período do ano passado, o Ebitda da empresa havia sido de R$ 394,4 milhões. A margem Ebitda ajustada da empresa caiu de 45% para 40%.

A receita líquida somou R$ 801,6 milhões, queda de 8% sobre o terceiro trimestre de 2007. Em volume, as vendas de celulose recuaram 10% no período, para 679 mil toneladas.

Em termos de produção, a Aracruz registrou alta de 7% em celulose, para 810 mil toneladas. Às 11h01, as ações da Aracruz recuavam 4,88%, cotadas a R$ 3,51. No mesmo horário, os papéis da VCP caíam 0,5% e o índice Ibovespa mostrava alta de 0,99%.

Prejuízo

Outra companhia afetada pela crise internacional, a Sadia registra, pela primeira vez em seus 64 anos de história, um prejuízo em suas contas anuais.

– Há uma possibilidade (de prejuízo), mas sou corintiano e, até os 48 minutos do segundo tempo, ainda há jogo. De repente, se não der para ganhar porque afundamos R$ 760 milhões (valor que se refere a perdas anunciadas no fim do mês passado em razão de operações financeiras com câmbio), pelo menos poderemos empatar – disse Luiz Fernando Furlan, presidente do conselho da Sadia, em conversa com jornalistas.

A empresa vem tentando reverter parte do prejuízo e realiza uma auditoria em suas contas. Segundo Furlan, a checagem de suas contas apontará onde ocorreram as falhas.

– Estamos tomando todas as providências no sentido de preservar o interesse dos acionistas e dos funcionários, que foram prejudicados – disse Furlan.

Furlan esteve com o presidente Lula, há uma semana. Ele disse que lembrou ao presidente da República que a afirmação de que empresas exportadoras, como a Sadia, estariam especulando contra o real "foi infeliz".

– Os bancos internacionais que colocaram 200 empresas brasileiras numa situação de aperto especularam contra o real. Quem especulava a favor acreditava na estabilidade da economia, na taxa de câmbio histórica e no que o próprio presidente falou, que a crise não chegaria ao país. Essas empresas é que levaram ferro – disse Furlan.

Tags:
Edições digital e impressa