Rio de Janeiro, 01 de Setembro de 2026

Gramática x linguística: a polêmica antiga foi renovada

Terça, 17 de Maio de 2011 às 04:40, por: CdB

A mediocridade entrou novamente em campo sob aplausos. Ao fazer isto só demonstrou o quanto merece ser derrotada. A Gramática é apenas uma descrição formal da língua. Mas nem sempre ela leva em conta a lógica e as necessidades impostas pela comunicação. Muitas das escolhas gramáticas são aleatórias e artificiais. O caso dos verbos irregulares é exemplar. Os gramáticos nos dizem para falar/escrever "eu comi", mas não podemos falar/escrever "eu fazi". "Comer" e "fazer" têm a mesma terminação, portanto, poderiam assumir a mesma forma no passado perfeito. A única explicação para isto não ocorrer é alguém em algum momento escolheu a forma "eu fiz" por alguma em razão que desconhecemos. A Linguística preocupa-se com a língua tal como é usada. Pressupõe que a finalidade da linguagem é a comunicação e que a comunicação sempre foi, é e sempre será um fenômeno social e histórico. A Gramática preocupa-se com a forma e tem por objeto a linguagem congelada no tempo (quase sempre num passado remoto). A Lingüística preocupa-se com a linguagem viva e procura entende-la sem prescrever regras imutáveis. No Brasil, o ensino sempre privilegiou a Gramática. A Lingüística tem sido deixada de lado ou tratada como subalterna. Nas Academias e nos órgãos estatais voltados para a Educação, tudo está disposto como se a primeira fosse uma ciência exata cheia de méritos e a segunda uma pseudociência praticada por professores cabeludos e maconheiros. Ninguém deve estranhar, portanto, a polêmica levantada em torno do livro didático contendo expressões linguisticamente corretas e gramaticalmente inadequadas. O preconceito gramatical mostrou novamente sua face. Mas o fez de uma maneira educada e sob o disfarce do "discurso de autoridade". Como se a autoridade da gramática nunca pudesse ser discutida. Onde estão as gramáticas dos séculos XVI e XVII? Estão onde deveriam estar: na lata do lixo da história. Ninguém mais fala "vossa mercê". O popular "você", que era errado e desprezado no passado se tornou a regra culta no presente. E se hoje, para desgosto dos gramáticos, uma parte da população fala "ocê" daqui a 200 anos os futuros gramáticos ensinarão que "ocê" é a forma culta e "você" será apenas um arcaísmo. Tudo isto demonstra de maneira satisfatória que a linguagem é um fenômeno histórico mais importante e mais duradouro que a própria Gramática. Gostem ou não os gramáticos e os defensores da Gramática também serão obrigados a evoluir. Se quiserem, eles até podem continuar falando a linguagem das múmias. Mas com o tempo só conseguirão ficar confinados a um pequeno grupo e passarão a ser discriminados exatamente como hoje discriminam. Tenho vontade de rir quando vejo jornalistas, professores e leigos defendendo de maneira tão enfática a Gramática e denegrindo um livro didático porque o mesmo considera válida a comunicação gramaticalmente inadequada. Não os vejo se empenharem tanto para proibir a publicação de Grande Sertão Veredas? Se o autor de um dos maiores clássicos da literatura brasileira do século XX (e de todos os tempos segundo alguns estudiosos) pôde usar a linguagem coloquial de maneira artística porque os brasileirinhos deveriam ser proibidos de fazer isto? Quando vejo esta polêmica e olho para o passado só consigo chegar a uma conclusão. Esta disputa é apenas mais um desdobramento do velho conflito colonial entre o colono português analfabeto "culto" x indígena iletrado exímio conhecedor da terra conquistada. Pelo jeito a mediocridade e o preconceito continuarão a ser uma das maiores características da Pindorama invadida e conquistada. Por fábio de oliveira ribeiro Email:: sithan@ig.com.br

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