Governistas e oposição chegaram a um entendimento sobre como votar nesta quinta-feira a medida provisória que fixa o novo valor do salário mínimo. Pelo acordo, a proposta do PFL de elevar o valor para 275 reais irá à votação caso os 260 reais definidos pelo governo sejam rejeitados.
"Nós vamos votar primeiro os 260 reais, por um pedido da senadora Roseana Sarney (PFL-MA), e depois faremos a votação nominal dos 275 reais", afirmou o líder do PSDB na Casa, Arthur Virgílio (AM).
Na avaliação de alguns parlamentares, a troca pode facilitar a vida do governo, que começa a ver um cenário mais favorável, embora ainda incerto. O primeiro sinal para o ânimo dos aliados, horas antes do momento esperado para votação, são os indícios iniciais de um certo esvaziamento do plenário combinado com a reversão de algumas posições.
O pefelista Paulo Octávio (DF) foi o primeiro a retirar o time de campo, viajando à Holanda para participar de um casamento. Durante toda a semana, a oposição anunciou aos quatro cantos que nenhum de seus senadores estaria ausente do plenário no momento da votação.
A também pefelista Maria do Carmo Alves (PFL-SE) viajou para assumir uma secretaria em seu Estado, e segundo o líder do partido no Senado, José Agripino (RN), não há tempo hábil para a posse de seu suplente.
O tucano Marcos Guerra (ES) se reuniu no Palácio do Planatlo e, segundo os próprios líderes da oposição, ameaça mudar seu voto, que era pelos 275 reais. O peemedebista Papaléo Paes (AP) seria outro senador que estaria revertendo sua posição de votar contra os 260 reais.
Marcello Crivela (PL-RJ), que anunciou voto contra o governo, também está viajando. Embora sua assessoria informe que ele deve voltar a tempo da votação, uma fonte do governo disse que isso não deve acontecer. Na quarta-feira, o vice-presidente da República, José Alencar, telefonou ao colega de partido para reverter sua posição.
Durante a reunião de líderes nesta manhã, a oposição prometeu não fazer "firula" para desmoralizar o governo. A estratégia de ataques pesados na tribuna da Casa e de erguer cartazes com fotos dos atuais governistas criticando o salário mínimo fixado pelo governo passado foi revista pela oposição.
O discurso mais ameno é uma forma de preservar o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, atualmente em rixa com o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, em uma disputa por espaço político. Segundo parlamentares da própria base aliada, Dirceu estaria buscando seu antigo posto de articulador político de volta.
"Se o José Dirceu voltar a dar as cartas (aqui no Congresso), as relações deterioram-se mesmo. Eu não quero dialogar com um molotov", afirmou Virgílio.
Se o valor de 275 reais for aprovado, a matéria volta para Câmara, onde a mudanças deverá ser confirmada ou rejeitada pelos deputados. O governo trabalha com essa possibilidade e sabe que terá de trabalhar dobrado para conseguir manter a proposta do Palácio do Planalto.
Na Câmara, o governo garantiu os 260 reais, mas muitos deputados que votaram com o governo prometem mudar de posição, pois julgam ser desmoralizador ter de aprovar pela segunda vez uma medida impopular em véspera de eleição.
Diante de um cenário de derrota desenhado por assessores na última terça-feira, foi o próprio Lula que resolveu não jogar a toalha antes do tempo, assumindo pessoalmente a articulação junto a senadores resistentes em votar com o governo. Desde quarta-feira o presidente vem telefonando a senadores para pedir apoio.
Caso a proposta do PFL passe também na Câmara, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve vetar a decisão das duas Casas.