Valls tentava equilibrar os pratos entre a esquerda e os segmentos conservadores da sociedade francesa
Primeiro-ministro francês, o socialista Manuel Valls apresentou, nesta segunda-feira, a renúncia de seu gabinete, um dia depois de o ministro da Economia, Arnaud Montebourg, pedir novas políticas econômicas e questionar a "obsessão" da vizinha Alemanha com o rigor orçamentário. O presidente francês, François Hollande, pediu há quatro meses que Valls formasse um novo governo, mas o primeiro-ministro vinha permanentemente tentando conciliar diferenças de visão política entre esquerdistas como Montebourg e membros mais centristas do governo liderado pelos socialistas.
O gabinete de Hollande disse em um comunicado que o novo governo seria formado na terça-feira, em conformidade com a "direção que ele (o presidente) definiu para o nosso país". Montebourg disse no fim de semana que medidas para a redução de déficits implementadas desde a crise financeira de 2008 estavam paralisando as economias da zona do euro e pediu aos governos que mudem com urgência o curso, do contrário perderão votos para populistas ou extremistas de direita. Com a dissolução do gabinete, a França entra em águas políticas desconhecidas.
O primeiro-ministro, um social-democrata, que tem sido comparado a Tony Blair, agiu com a rapidez própria de quem precisa reafirmar sua autoridade. Montebourg cruzou a "linha amarela" em uma entrevista ao diário francês de centro Le Monde, no sábado, e seguiu com seu discurso no Partido Socialista, que se reuniu neste domingo. Em uma referência velada ao presidente François Hollande, disse que o conformismo era um inimigo e "meu inimigo é a governabilidade".
– A França é um país livre que não deve ser alinhando-se com as obsessões do direito alemão – disse ele, pedindo uma "resistência justa e sã" à política de austeridade.
Ele foi acompanhado em sua crítica pelo ministro da Educação, Benoit Hamon, que na segunda-feira negou que tivesse sido desleal. Um terceiro ministro, Aurélie Filipetti, também apareceu em perigo de perder o seu emprego depois de desejar um "bom dia" no Twitter para seus dois colegas dissidentes. Hollande, que está politicamente enfraquecido com seu índice de aprovação no ponto mais baixo desde as eleições, em 17%, determinou que Valls forme um novo governo, o que é esperado para esta terça-feira.
Valls prometeu cortar déficits e reduzir a carga fiscal sobre as empresas, o que o coloca em rota de colisão com a ala esquerda do partido, representada por Montebourg. As mudanças ainda não foram realizadas, o desemprego está em cerca de 11% e crescimento em 2014 está previsto para ser de apenas 0,5%. Espera-se um discurso de Montebourg para as próximas horas.
Políticos de centro-direita disseram que o ministro da Economia deveria se, enquanto alguns socialistas reconheceram que era ilógico para um ministro da Economia atacar as políticas econômicas de seu próprio governo. A Frente Nacional passou também a exigir a dissolução do parlamento. O desafio para Valls será montar um governo que possa ganhar a aprovação da Assembleia Nacional, apesar da revolta e deserções à esquerda do Partido Socialista pelos ecologistas.
– Nós não podemos descartar que o governo que perde sua maioria no parlamento, e o presidente precisará encarar a dissolução da Assembleia. A crise ainda não acabou, está apenas começando – afirmou o especialista constitucional Dominique Rousseau ao diário francês de esquerda Libération.
Crise na Ucrânia
A chanceler alemã Angela Merkel e o presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, sem comentar a crise no país vizinho, percorreram nesta manhã os seis quilómetros finais do Caminho de Santiago de Compostela, antes de visitar em conjunto a catedral desta cidade galega. Sobre a situação de dificuldades econômicas na Europa, Merkel afirmou que a crise na Ucrânia está afetando a Alemanha, maior economia do bloco, que sofreu uma surpreendente contração de 0,2% no segundo trimestre.
Markel afirmou que um inverno incomumente ameno, que antecipou a virada de primavera, teve influência na leitura fraca do período de abril a junho, mas acrescentou que a crise na Ucrânia também estava afetando o crescimento alemão.
– Existem, entretanto, algumas incertezas, e não quero ocultar isso, toda a situação Ucrânia-Rússia mostra que nós claro temos um grande interesse em nossas relações internacionais serem construtivas novamente. Mas eu todavia espero que nossa taxa de crescimento anual seja boa, se nada dramático acontecer – disse ela, na entrevista conjunta com o primeiro-ministro espanhol.
O governo alemão projeta que a economia crescerá 1,8% neste ano.
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