O Senado russo aprovou, nesta quarta-feira, uma lei que dá ao chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas o direito de utilizar o Exército fora do país sem ter que consultar antes os legisladores. O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, apresentou o projeto de lei ao Parlamento em agosto. Dois meses depois, a iniciativa foi aprovada pela Duma (a Câmara dos Deputados), segundo as agências russas.
Agora, com o sinal verde dos senadores à nova lei, o chefe do Kremlin terá o direito de definir: o contingente mobilizado para um determinado fim, a área em que os soldados atuarão, a missão dos militares e os prazos de permanência das tropas no exterior. De acordo com o texto aprovado, o Exército só poderá ser usado fora do país para "repelir ataques contra as Forças Armadas ou contra tropas russas destacadas fora do território nacional", ou para "opor resistência ou evitar uma agressão contra um Estado terceiro que tenha pedido ajuda à Rússia".
O presidente também poderá utilizar o Exército para "defender cidadãos russos fora do país", "lutar contra a pirataria e garantir a segurança da navegação". Ao apresentar o projeto, Medvedev disse que o objetivo dele era "criar um mecanismo jurídico que garantisse ao chefe de Estado a possibilidade de utilizar de forma operacional as Forças Armadas fora do território nacional".
O chefe do Kremlin declarou que a iniciativa tem a ver com o conflito travado com a Geórgia, em agosto de 2008, pelo controle da separatista Ossétia do Sul.
Arquiteto das reformas
Medvedev decretou luto oficial no país pela morte de Yegor Gaidar, arquiteto das reformas que ajudaram a consolidar a transição da Rússia pós-soviética, mas que levaram muitos à pobreza. Ele morreu nesta quarta-feira, aos 53 anos. Como ministro de reforma do ex-presidente Boris Yeltsin, Gaidar provocou tanto admiração quanto raiva por ajudar a desmantelar o sistema econômico centralizado, ao liberar os preços em 1992 antes que a poeira tivesse baixado nas ruínas da União Soviética.
Chamado de "terapia do choque", suas reformas desvalorizaram as poupanças de milhões de russos e deram a alguns poucos "oligarcas" a chance de agarrar bens da ex-potência por preços muito baixos. As políticas de Gaidar, apesar de muito prejudiciais a milhões, ajudou a Rússia na transição do comunismo, e os defensores delas dizem que as reformas, ao final das contas, impediram que a Rússia entrasse numa guerra civil após o colapso da União Soviética em 1991.
"Ele era um grande homem. Um grande cientista e um grande estadista", escreveu Anatoly Chubais, um amigo próximo e colega reformista, em seu blog www.chubais.ru.
"A Rússia teve uma sorte tremenda de ter Gaidar lá em um dos momentos mais difíceis de sua história. No início dos anos 1990, ele salvou o país da fome, da guerra civil, e do colapso", disse Chubais.
Gaidar morreu em consequência de um problema com um coágulo sanguineo em sua casa de campo, nos arredores de Moscou, às 3 horas da manhã, informou uma porta-voz. Ele estava trabalhando num artigo econômico, ela disse, acrescentando que ele não havia reclamado de nenhum problema de saúde. Nascido em Moscou no dia 19 de março de 1956, numa família ilustre russa, Gaidar se formou em Economia na Universidade de Moscou em 1978.