Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 2026

Governo que fracassa

Por Emir Sader - Ele foi eleito para mudar o país. Depois do fiasco de presidentes anteriores, trazia consigo a esperança do movimento popular. Meses depois, o governo de Gutiérrez, no Equador, é mais um que decepciona na AL. (Leia Mais)

Segunda, 11 de Agosto de 2003 às 19:28, por: CdB

Ele foi eleito para mudar o país e tirá-lo de um modelo econômico considerado causa dos males que produzem a miséria e a infelicidade do seu povo. Depois do fracasso dos presidentes anteriores, ele foi depositário da esperança do movimento popular, que pela primeira vez se sentiu vitorioso com seu triunfo, participando do seu governo com alguns de seus representantes.
Ele havia estado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, identificando-se com suas causas.
Mas quando assumiu a Presidência, quem mudou foi ele e não o país. Correu aos EUA reafirmar uma aliança preferencial, quando havia se comprometido a repudiar a Alca e a privilegiar o Mercosul. Reafirmou os compromissos com o FMI e com o modelo econômico vigente. Assim, foi perdendo o apoio dos movimentos sociais, até que estes apontaram para uma ruptura com o seu governo. A esperança dos que o elegeram transformou-se em decepção.

Seu nome é Lúcio Gutiérrez, que em seis meses perdeu grande parte da popularidade junto ao povo equatoriano e aos seus aliados políticos. Relativamente jovem, com 43 anos, Gutiérrez era um desconhecido coronel do Exército quando, em janeiro de 2000, liderou oficiais jovens que participaram na derrubada do presidente Jamil Mauhad. Era o resultado de um movimento de 5 mil indígenas que durante vários dias controlou as ruas de Quito que cercam o Congresso, onde os manifestantes ingressaram no dia 21 de janeiro daquele ano com a ajuda dos rebeldes uniformizados liderados por Gutiérrez.

Nessa mesma tarde os indígenas entraram no Palácio de Governo, do qual já havia fugido Mauhad. Formou-se então um triunvirato composto por um general, um líder indígena e um ex-presidente da Corte Suprema, que durou três horas. Os altos oficiais das Forças Armadas desconheceram esse governo e fizeram presidente o vice, Gustavo Noboa. Gutiérrez foi expulso das Forças Armadas por sua participação no movimento, mas iniciou sua carreira política. Fundou um pequeno partido - Sociedade Patriótica 21 de Janeiro - e acabou sendo eleito presidente no ano passado, apoiado pelo movimento indígena.

Gutiérrez assumiu o governo em 15 de janeiro, prometendo que ao final do seu mandato de 4 anos entregaria um país totalmente mudado, sem corrupção e reativado economicamente. Entregou os ministérios de Relações Exteriores, de Agricultura e de Educação a representantes indígenas, mas logo começaram as divergências entre o presidente e esse movimento, que foi rapidamente se sentindo traído por Gutiérrez. A ingerência do FMI - que tem como uma de suas conseqüências o fato do país não se dispor a sair da dolarização levada a cabo por Mauhad - é o principal tema de conflito com o movimento indígena, assim como a aliança de Gutiérrez com políticos tradicionais, acusados de corrupção, e o privilégio dado à Alca.

Aos seis meses de governo, Lúcio Gutiérrez parece juntar-se ao cada vez mais extenso grupo de presidentes latino-americanos que têm fracassado rapidamente, porque prometem sair do modelo neoliberal e - porque não conseguem e/ou não querem - acabam fracassando, como De la Rúa, Fox, Battle, Toledo e Sanchez de Losada.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "Século XX - Uma biografia não autorizada" (Editora Fundação Perseu Abramo) e "Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).

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