O Governo italiano começou neste sábado formalmente suas férias de verão após várias semanas de polêmicas internas entre seus sócios e com o olhar fixado em setembro, quando retomará os trabalhos da presidência semestral européia, motivo já de algumas críticas no exterior.
O Conselho de Ministros desta sexta-feira fechou um curso político protagonizado pela figura do chefe do Executivo, Silvio Berlusconi, cujas iniciativas e comentários foram cercados pela controvérsia.
Depois de dois anos no Governo, o centro-direita da Casa das Liberdades manteve sua unidade, embora sejam cada vez mais freqüentes os desencontros internos e o cruzamento afiado de críticas entre os aliados.
O próprio Berlusconi, na entrevista coletiva para despedir-se da temporada política, se viu obrigado a negar que a palavra "crise" esteja em seu dicionário, mas o certo é que mais de uma situação ameaçou abri-la em algumas ocasiões nos últimos tempos.
Um exemplo recente foi a decisão do ministro da Justiça, Roberto Castelli, de negar-se a tramitar uma comissão rogatória aos EUA para investigar alguns problemas fiscais de meados dos anos 90 do grupo televisivo Mediaset, propriedade de Silvio Berlusconi.
Castelli teve que retratar-se há poucos dias e autorizar a rogatória ante o risco de uma ruptura no Governo por parte dos democratas-cristãos da UDC.
Os democratas-cristãos, que defendem as posições mais centrais no Gabinete, tiveram nos últimos meses vários confrontos com a Liga Norte de Umberto Bossi, especialmente quando foi regulada a imigração e a transferência de mais concorrências para as regiões, assunto este no qual a formação federalista também teve problemas com a direitista Aliança Nacional de Gianfranco Fini.
Ao mesmo tempo, a atitude de Berlusconi frente a Justiça, uma parte da qual considera "politizada", é outro foco de problemas.
O primeiro-ministro está sendo processado por suposta corrupção em um caso em um tribunal de Milão, embora o perigo de uma sentença pareça superado depois da aprovação de uma lei que concede imunidade judicial a esse cargo e a outras quatro altas instâncias do Estado, uma norma que a oposição acha feita sob medida para Berlusconi.
O mesmo que a lei aprovada em julho pelo Senado, que ainda deve ser ratificada pela Câmara de Deputados, para reorganizar o negócio televisivo, um âmbito especialmente sensível para Berlusconi, dono de três canais generalistas de Mediaset e agora controlador dos outros três da estatal RAI.
Para curar-se de saúde, Silvio Berlusconi pediu a seus ministros que durante estas férias não façam declarações públicas e evitem assim que se contamine de novo o ambiente interno, enquanto para setembro são anunciadas mais "batalhas" contra os magistrados "politizados" e reformas do Senado, do Tribunal Constitucional e do ordenamento judicial.
Em setembro a Itália voltará a exercer as tarefas da presidência européia, cuja estréia, no começo de julho, foi infeliz, já que Berlusconi provocou um escândalo em nível europeu depois de identificar a atitude de um eurodeputado alemão em Estrasburgo com a de um nazista.
A onda de críticas em toda a Europa ficou pequena, no caso da Alemanha, quando dias depois o subsecretário de Turismo, menosprezou os milhões de alemães que visitam a cada ano a Itália, e por isso teve que se demitir, empurrado pela forte polêmica e o protesto oficial do Gabinete alemão.
Neste contexto, com sua atuação interna e seus comportamentos em nível internacional, Berlusconi é visto com suspeita por parte da Europa, especialmente pela imprensa, que dedica a ele duros artigos nos quais expõem a peculiaridade de um homem que aglutina em suas mãos o maior poder político e econômico do país que preside a UE até dezembro.